3/04/2013

Ovelhas. Leopardos. Chacais.



Por um lado.
Falta a Passos Coelho a clarividência dorida e digna de D. Fabrizio de Salinas, quando este sente na carne o desespero do anacronismo feito homem e a voragem de um tempo que lhe exige que morra mas o não mata. Sobra-lhe, no entanto, o cinismo de Tancredi, elevado embora ao expoente da arrogância e subtraído da capacidade de ler os sinais do tempo, de uma certa inteligência prática, portanto. Daquele observa-se-lhe um certo materialismo venal, depurado embora da coragem das armas. Não lhe falta, do arrivista baronete Sedara, o xico-espertismo, mas um xico-espertismo auto-comprazido, desbastado portanto da insatisfação permanente do labrego edil de Donnafugata, que deseja melhor, antes de desejar mais.
Falta a Portas a beleza, em qualquer dimensão que consideremos a beleza [talvez, se lembrarmos o horrendismo romântico, pudéssemos integrar Portas numa qualquer categoria de beleza. Talvez a beleza de Portas seja aquela surrealista “beleza convulsiva”. O Moyle, pelo menos, está disposto a aceitar metade deste postulado bretoniano, nomeadamente a referente às convulsões que a visão, audição ou assombração de Portas lhe provoca.], de Angelica. O que não falta a Portas, no entanto, é a vontade de dar a mão a quem quer que seja que o leve “ao baile”. Apesar dos ares de pudibunda donzela a que se vai dando, dificilmente se descola daquelas peles gastas pelo fumo da intriga as marcas de usura de uma vida de meretrícia política. Nem beleza nem delicadeza.

Por outro lado.
Não falta a nenhum dos dois esta espécie de frenesim necrófago da fraternidade, para tal mantida num estado de putrefacção vivente.
Não falta a nenhum dos dois esta espécie de júbilo de celebração da decadência dos direitos dos Homens, para tal envolvido num estado de ignorante desprezo.
Não falta a nenhum dos dois esta espécie de sofreguidão de festim em derredor da carniça da liberdade, mantida para tal num estado de comatosa indiferença.

Por fim.
Precisando de Leopardos, oferecemo-nos a esmordaçantes Chacais!

2/08/2013

Cassandrices Presunçosas


É uma tragédia grega este PS, que anda, titubeante e dolorosamente, a expiar a hybris de Socratémnon.
Estava o xifo por enterrar no tenro colo de Segumnestra e já Costorestes se arrependera da facada que ainda não dera. "C***s de sabão"!, terá vociferado o desespero dos deputados socialistas que haviam prometido o seu apoio ao edil da cidade de Ulisses contra Segumnestre, do que os jornais deram candidamente eco.
A tibieza de Costorestes, que, ao recusar enterrar a lâmina no peito de Segumnestra, acabou por fazer das espaldas dos camaradas a bainha do seu aço, inquinou já o seu hipotético futuro à frente das rédeas róseas. Talvez tenha sido assaltado pela consciência de que geme já a dobadoira das Moiras e se insufla a implacável fúria das Erínias.
Estranho caso este em que Costorestes se arrependeu de uma facada que não deu, já se arrependeu de não ter dado uma facada e já se arrependeu do arrependimento pois agora sonha com a facada dada mas sem a dar. Ou seja, tal como o Orestes de Ésquilo, passou-se! 
E, para vos fazer ver que toda esta merdice foi muito bem pensada e que não foi amanhada à pressa para aproveitar uma imagem que se ofereceu quase por acaso, redundaremos em mais um parágrafo de variações sobre um mesmo tom, mas que parece confirmar, quer dizer, só parece confirmar assim assim pois o conceito subjacente a esta fantochada periclita por todos os lados, o brilhantismo desta alegorias.
Clitemnestra matou Agamémnon, como toda a gente já leu na Maria, ou no Público, ou em que tais fossas de boatos. A nossa Segumnestra, mais que provocou, confirmou a morte política de Socratémnon. Anda, agora, Costorestes mortinho para vingar a  morte de Socratémnon e liderar a ala socratémnonista de volta ao trono rosa. Tal como em Ésquilo, as Erínias Jorge Alectão, Silva Tisífereira e Santos Megerilva, perseguem Costorestes mas, neste caso, berram-lhe aos ouvidos por não ter esfaqueado ninguém.
Além disso... já chega desta treta. Fiquemo-nos pela consolação de que não somos mais para estes deuses e semi-deuses que as acerbas pedras da Hélade foram para os outros deuses e semi-deuses, aqueles mesmo a sério.


2/05/2013

Sucessão de Non Sequitur Alegóricos


Prosseguindo a bíblica praga de "tonis" que tem afligido o Egipto socialista, vemos que, apesar de tudo o que se lê, talvez até nem seja o totó do Toni a sentir-se pouco Seguro com o Toni a rondar na Costa. 
O Toni, apesar da aparente largueza de Costa(s), parece hesitar em assumir o cajado de patriarca, não estando muito Seguro no papel de Moisés socialista. 
Que se passa? Ninguém sabe verdadeiramente, embora os profetas da comunicação social apresentem diversas revelações. Talvez falte diálogo, como no tempo do outro Toni, que parece está refugiado.
Seja como for, na actual travessia do deserto, ambos os tonis se revelam pouco promissores na condução socialista à Terra da Promissão governativa.
Em terra de tonis, o Zé foi rei e, com estes meros aprendizes de feiticeiro, Portugal não passa de um menino na mãos das bruxas



2/03/2013

Quo usque tandem abutere, Cuniculus, patientia nostra?



De início o crescimento da economia aconteceria logo na segunda metade de 2012.  A seguir, quando o "de início" não se concretizou, o crescimento da economia passou a estar marcado para a primeira metade de 2013. Entretanto, perante a impossibilidade manifesta de o "a seguir" se tornar real, o crescimento da economia, agora sim, sucederia inevitavelmente na segunda metade de 2013. Na realidade, não é a economia que vemos crescer. 
De anúncio em anúncio, o que tem vindo a crescer inexoravelmente é a "água suja" na retrete em que esta terreola se transformou!

1/21/2013

Quadros Onanísticos da História de Portugal


Introdução Masturbatória Expletiva

A divisão da História em épocas, eras e episódios, em estruturas e conjunturas, em ciclos e curvas, em temas e assuntos, em espaços, fronteiras e culturas, em galerias de heróis e santos, semi-deuses e magos, reis e artistas, guerreiros e especuladores, é uma necessidade imprescindível ao Homem. Sendo a História todo o insondável reportório da actividade humana – de todos os seres humanos desde a caliginosa noite dos tempos – a sua compartimentação, à vista da pequenez do Homem, modesto mesteiral de divina obra, e por factores de índole operativa, torna-se absolutamente inevitável. Não tendo como abarcar todo o proceloso e oceânico manancial da História, o Homem canaliza-o e represa-o como pode, de forma a retirar dele os ensinamentos que lhe aprendem o que e quem é. E, embora o Passado não seja plácido lacustre espelho em que se reflecte indolentemente o Futuro, é da sua conservação que, pelos seus sôfregos sorvedores nas opalinas krateras da Memória, se prepara este.
O risco é, no entanto, perfeitamente evidente. A compartimentação do Todo entorpece a experiência avassaladora do Todo. A necessidade de compartimentar a História, veículo único para ler, compreender e aprender o Homem, leva à diminuição da História às mãos dos espíritos menores, que tomam a parte, a sua ínfima parte, pelo Todo, esse absoluto inalcançável, senão por deuses maiores que não somos. Num paradoxo irresolúvel, é a pequenez inultrapassável do Homem que germina as sementes que, enquanto lhe tapam a apolínea luz da História, o elevam a vislumbrar as duramente merecidas centelhas fátuas desse Sol transcendente.
Ainda assim, o Moyle lançará, como humílimo servo, mais algumas sementes na gleba da sabedoria dos filhos de Adão. Sabedor de obscurecer por ensaiar lançar luz, o Moyle não abdicará de cumprir o seu Destino, de ser o Fado em si, alçar-se pela humilhação, elevando-se aos diamantinos deuses pela assunção da sua excremental transitoriedade. O Moyle vai, portanto, contribuir para o zeitgeist com uma visão parcelar da História, com a sugestão de ainda mais um compartimento de um compartimento. Neste caso, uma parcela desprezada da, já de si compartimental, História de Portugal: a História onanística de Portugal.
Não se tome, contudo, estes tentames por sádicas sevícias infligidas às vossas paciência e inteligência, ou, por outro lado, um mero exercício masturbatório progénie da indolente despreocupação de um desocupado. Muito pelo contrário, veremos que o onanismo beneficia de um palpitante potencial de interpretação histórica e construção historiográfica. Não sairão defraudadas as vossas paciência e inteligência ao serem banhadas pelas virtudes da masturbação enquanto estrutura histórica e, ao mesmo tempo, conceito que operacionaliza a interpretação de várias “mãos” históricas.
Recusando o Moyle encarreirar por epistemológicas veredas de Fim da História, não deixará, contudo de assumir a sua esperança num futuro risonho e duradouro da Democracia [no longo é árduo caminho de construção da utópica sociedade anárquica], como suprema criação da mente humana. Ora, sendo a masturbação a mais democrática forma de estimulação sexual, fica claramente exposto o potencial de operacionalização interpretativa do História de Portugal em quadros onanísticos. É que, apesar do potencial com que todos [ou quase] nascem para a sua prática, o sexo não é democrático e para muita gente os deleitosos transportes de dos mesteres de Vénus assumem, inclusivamente, laivos de impossibilidade. A masturbação não! A prática do auto-sexo tem ajudado, durante milénios, a lançar, aos cidadãos de sexualidade reduzida, a rampa de acesso aos deliciosos palácios de Afrodite. O culto solitário a Astarte tem reposto uma democrática justiça em favor dos feios, dos doentes, dos ascorosos, dos padres e freiras, dos envergonhados, dos ejaculadores precoces, dos filiados no CDS e de todo um nunca mais acabar de infelizes que a Fortuna madrasta tem afastado miseravelmente do lânguido amplexo de Voluptas, do macio seio de Hédone, dos libidinosos salões de Freia.
Na realidade e consequentemente, para potenciar a operatividade do conceito, sugerimos que termos e conceitos como “correntes”, “ondas”, “movimentos”, “ciclos”, sejam estéticas, mentais, político-sociais, económicas ou outras, vulgarmente usados por necessidade do historiador e comodidade do leitor, se substituam, em termos de aplicação do conceito punhetístico, por “mãos”. Desta forma, dividiremos a História onanística de Portugal em seis “mãos”, a que poderão, por intermédio de estudos subsequentes e de caso, acrescer-se outras “sub-mãos” que valorizem operativamente a compreensão histórica.
É no entanto, com humildade, como rasteiro fruto que somos das gónadas do tempo, do espaço e do contexto, que oferecemos ao escrutínio dos leitores estas propostas de análise e interpretação que alicerçamos, naturalmente, em periodizações previamente elaboradas e razoavelmente consolidadas da História deste pequeno país, deste diminuto povo e desta sua modesta cultura. Por conseguinte, não se pretende refazer a História de Portugal, antes contribuir para o seu aprofundamento com este singelo acréscimo epistemológico que, reunido aos quadros conceptuais vigentes, robustecerá as raízes da árvore que nos alcandorará à luz. Além disso, a cada uma das “mãos”, em que será dividido o percurso civilizacional dos portugueses, será atribuída uma denominação tradicional para os dulcíssimos manejos do auto-amor.
Chama-se a atenção, contudo, para a subjectividade imanente a todas as opções epistemológicas. As “mãos” da História de Portugal propostas são e serão, deseja-se em nome da Ciência e da Arte da História, discutíveis e discutidas. Escusar-nos-emos, no entanto, de justificar os méritos de cada uma das sugestões apontadas por não se maçar a paciência do leitor, por um lado, e não ser este o fórum para debater e “bater” a História, por outro. Além do mais, resulta claro para qualquer leitor minimamente atento que o Moyle divulga, através deste arremedo ensaístico, a sua visão individualista do Mundo e da Sociedade, recuperando mas não se esgotando em grandes masturbadores do intelecto como Hobbes, Locke e Rousseau, por exemplo. Não caiamos, no entanto, na confusão abusivamente repetida, de individualismo com egotismo. Na sociedade como na masturbação, a valorização do EU não pressupõe a negação do e ao OUTRO. Há sempre espaço, mesmo perante fortes constrangimentos alógenos, para o exercício da individualidade. Mas, enfim, contentar-nos-emos, de momento, em visitar esta novidade epistemológica, divulgando-a a todos os vós, meritíssimos leitores.

«Gaiolas Pombalinas»
Este ensejo de nova periodização da História de Portugal, baseada em critérios epistemológicos masturbatórios, nasce de uma pérola que, como o proverbial gato, tem permanecido teimosamente escondida à vista de todos nos séculos decorridos desde aquela cataclísmica véspera do dia dos mortos de 1755. De facto, o terramoto que devastou a cabeça do Império luso deu o mote para que assumisse o leme do barco anhoto, que era o reino português, nas horas que se seguirem à assombrosa manhã, essa sim verdadeiramente submersa, o marquês de Pombal. Esse Sebastião José, cujo soberbo pulso foi, além do marquesado, galardoado com o condado de Oeiras, impôs uma vontade, um rumo, uma direcção despótica, embora esclarecida e feliz nos seus propósitos.
A reconstrução de uma Lisboa arrasada até aos caboucos epitomiza a reconstrução de um Portugal prostrado por quase dois centénios de réplicas de obscuridade supersticiosa que, desde o terramoto primordial dos Habsburgos em 1581, vinham esfolando o reino de Portugal. Eis, portanto, um dos episódios nucleares de derramamento da semente histórica que, castrando um passado flácido, se ergue para a promessa de um futuro pulsante.
Depois da violenta irrupção de energias telúricas, depois das venenosas dimanações gasosas, depois do escatológico holocausto de chamas, depois do diluviano afogamento tsunâmico, o suspiro. Depois do suspiro, a mão de ferro e a vontade lítica de um homem fitando o futuro e que, entre a desolação, o pranto e a miséria, ousou semear a grandeza de um futuro à prova de sismos. Mas essa vontade de manipular o presente para construir um futuro em que jorrasse a felicidade generalizada deveria, antes de tudo, garantir que o desastre não se repetiria. Assim nasceu a “Gaiola Pombalina”.
No reinado antecedente, a que poderíamos, nesta madrugada da história onanística de Portugal, designar por “pré-gaiola”, concretizou-se uma tendência anterior de reforço da individuação do exercício da monarquia, com o rei D. João V a pugnar por assumir sozinho o “polimento do ceptro real”. O clímax desta pessoalização do esgarçamento potestático atinge-se, porém, em tempos de D. José. De notar que a intermediação de Pombal não esmorece o reforço do “mono” em monarquia, antes funcionando como estimulante do mesmo, pois o abate dos “Grandes” e o derrube da “Companhia”, mostra-nos claramente que a Coroa assumiu definitivamente a reserva do “ceptro” do rei, passando o monarca a manuseá-lo pessoalmente, ou depositando o ceptro num par de mãos seleccionadas e de confiança, e não à balda para quem lhe quisesse deitar a mão.
Toda a gente já ouvira falar da “Gaiola Pombalina”, mas ninguém reparara que esta designação não se aplicava apenas à mera aplicação prática dos primeiros estudos experimentais em engenharia civil anti-sísmica conhecidos no mundo. Mais do que uma solução de engenharia, preventora do colapso da estrutura arquitectónica sujeita às pressões e torções exercidas pelas violentas libertações de energia tectónica, mais do que a materialização de uma nova visão do mundo e de uma nova atitude perante o Universo, baseada na Razão e na ciência prática, a “Gaiola Pombalina” designa a opção da Coroa neste período. Pondo o seu ceptro num, apenas, par de mãos, D. José viu Sebastião José de Carvalho e Melo, o Conde de Oeiras, passar todo o reinado a fazer-lhe gaiolas, passadas à História como pombalinas, com pulso firme e suaves palmas aristocráticas.

«Segóvia Filipina»
Esta é uma “mão” terrível da história de Portugal. Não teremos a pretensão vazia e absurda de objectividade absoluta, de neutralidade olímpica, de asséptica esterilidade intelectual. A escrita da História exige a assumpção da impossibilidade do isolamento laboratorial da amostra. Por essa razão se assume aquilo que pode considerado um julgamento de valor ao apodar-se esta mão da História como sendo terrível.
Depois do ponto alto que foi o «olear do Galeão» manuelino, esta mão foi muito difícil e serão precisos quase dois séculos para que a gaiola pombalina dissolva os efeitos nefastos deste período. E se, nas primeiras décadas, não se notou de forma muito negativa a influência da castelhanização, os reinados do filho e do neto de Filipe II foram traumáticos.
Em que consiste, portanto, a «Segóvia pombalina»? Se a designação adoptada nos parece perfeitamente auto-explicativa, a explicação carece de cuidado epistemológico que promova a honestidade intelectual e restrinja os escolhos panfletários de primarismo anticastelhano. A grande questão, o elemento central que confere um forte peso de negatividade a esta mão histórica passa, precisamente, por um excesso de mãos, no que diz respeito ao exercício dos poderes. Mas não só!
Em pleno Antigo Regime ibérico, em contraciclo tridentino com as auspiciosas experiências do Humanismo individualista, as mãos ocupam-se a bater no peito e a acender fogueiras para expiar culpas alimentadas a judeus, esquecendo a sua função autocongratulatória.
O trabalho é controlado pela sociedade através das cristalizadas e rígidas corporações de origem mediévica, a que se junta uma muito pobre inovação tecnológica que, a aplicar-se ao trabalho artesanal, naturalmente, libertaria as mãos da população e, pela democraticidade da satisfação individual, teria acelerado, como aconteceu após a Revolução Industrial, a mudança política e cultural.
A economia é de tipo mercantilista, valorizando-se a acumulação em testiculares cofres e não a difusão dos fluidos monetários através do investimento. Releve-se que, apesar de ser o comércio o alavancador da economia pré-industrial, o comunitarismo agrário continua a marcar os quotidianos da maioria da população.
A sociedade encontra-se impedida da sua libertação onanística porquanto se vê de mãos postas, em preces e súplicas, bloqueando os padres, com ígneas tormentas, a consumação das doçuras da estimulação própria ao povo. Bloqueando-se os burgueses ao auto-amor por quererem ser aristocratas, desprezando estes as volúpias da carícia restrita por andarem ocupados a conspirar para acumular honras, cargos e propriedades.
O Poder, ao mesmo tempo que se anuncia monárquico, encontra-se espalhado por muitas mãos (poderes locais autárquicos, foros eclesiásticos e corporativos, isenções e privilégios aristocráticos, e todas as fórmulas conhecidas de fragmentação do poder no Ancien Régime que contrastam com o aprofundamento do discurso absolutista), sendo que as do Rei nem tocam no próprio ceptro, ao contrário de todas as outras. O valimento, podendo ser lido ingenuamente como erosão do poder monárquico, funciona, precisamente pelo contrário, como cimento desse mesmo poder.
Fanatismo religioso, mercantilismo económico e forte comunitarismo agrário, corporativismo laboral e limitada industrialização, estamentos sociais bloqueados na mobilidade ascendente, descendente, ascendente, descendente, ascendente, descendente e… por aí fora. Tempos negros para o nosso país, claramente em perda em termos de esgalhamento do pessegueiro!

«Vascolejar Manuelino»
Uma das vertentes mais importantes e interessantes desta mão histórica, que precede a anterior cronologicamente mas será aqui esgalhada posteriormente, é o seu carácter misto. Ou seja, reúne aspectos extremamente positivos e presidirá a um dos momentos mais importantes da História de Portugal, por um lado e, por outro, encerra em si as sementes de entropia que, subsequentemente e depois de germinadas durante a “segóvia filipina”, se manterão até à transformação profunda trazida pela “sarapitola liberal”.
O reinado do Venturoso é, todos o sabem, o reinado da concretização das descobertas geográficas iniciadas décadas antes por mui bons “oleadores da caravela” como o Infante D. Henrique e D. João II. Mas a Terra abre-se em tempos de D. Manuel e, assim que podem, os portugueses aproveitam imediatamente para espalhar a semente por todo o neófito mundo. Podendo-se, pois, dizer agora com toda a propriedade todo o mundo.
Claramente, o verbo “vascolejar” incide num nome maior da História de Portugal, o Homem que em nome de um povo casou o Índico com o Atlântico, o Oriente com o Ocidente, a Ásia com a Europa, o mar de Timor ao Mar da Palha. No entanto, a escolha do apodo “vascolejar” remete para o domínio do simbólico, do icónico. Cremos fundamental, por conseguinte, relevar a tecnologia de viagem e transporte da época – tecnologia da ponta, note-se – os galeões. Pensemos que, sem um eficaz “oleamento do galeão”, não há transportes e vascolejar torna-se difícil, possível sim mas impraticável, e isto tanto é válido literal como metaforicamente. Concretizemos no parágrafo seguinte.
O galeão eficazmente oleado suportava a viagem e a afluência na bisonha Europa das preciosas especiarias da Ásia. Em sentido figurado e onanisticamente falando, é “oleando o galeão” que se acede aos preciosos transportes de especioso deleite e doce efusão. Adivinha-se, contudo, que a torpeza de certas mentes acabará por sugerir uma associação entre as brancas espumas oceânicas e as brancas espumas de… Ai de nós, caros leitores, deixemos esses opróbrios para ignominiosas mentes!
Mas começámos por relevar a particular ambiguidade na definição desta mão histórica, quedando-se ainda por concretizar tal ensejo. Ao ponto alto da História de Portugal, que levou os portugueses a vascolejar-se onde nenhum outro ser humano se manuseara, contribuindo para a partilha civilizacional de técnicas de automanejamento, contrapõe-se o juncar das sementes daninhas que infestaram a História portuguesa nos séculos seguintes e que descrevemos no capítulo anterior. Ou melhor, para mantermos a coerência do simile, a manipulação de galeões deixou nas mãos farpas de madeira que levaram à trágica recusa de auto-amor que durou genericamente da Segóvia dos Filipes à Sarapitola do Liberalismo.
A posição portuguesa revelou-se insustentável pois a Coroa portuguesa não partilhou o esgarçamento. D. Manuel, ao apostar no monopólio régio de tratos orientais fechou a porta à generalização social da aventura manual portuguesa por mares nunca dantes esgarçados. Dessa forma, para investir na Carreira da Índia – centralizando e assumindo, portanto, as receitas e as brutais despesas de investimento – pôs-se na dependência de casas financeiras e, dos deleites do auto-estrafegamento onanista nacional, passou a servir os real e popular rabinhos à mesa das codiciosas casas financeiras, que então se formavam, iguaria de que estas, codiciosamente, se serviram durante séculos. Além disso e para abreviar que a coisa já se torna cediça, não esqueçamos o ódio púrpura aos requintes do vascolejamento [vide a tragédia de Onã] e, com os galeões que iam e vinham, a padralhada ia e ficava, destroçando o pórtico da felicidade que se escancarava para a humanidade.

«Pívia Afonsina»
Épica aventura teve lugar em alvores da undécima centúria da Graça! Às mãos do pequeno conde Afonso, de trans e cisalpina mestiçagem, derramou-se pela poeira do maometano ocaso da Ibéria o semen de novo reino prometido ao futuro. A quase milenar improbabilidade da gesta permite-nos, para o que rogamos a indulgência dos queridíssimos leitores, um pequeno arroubo poético, impado de orgulho, posto em tão valorosos avós.
Eis-nos, portanto, continuando em regresso cronológico, na nossa mão primacial, nos primeiros sacões da autocópula lusitana. Assim como é obscura a origem do termo popular escolhido para apodar esta mão de primórdio da História de Portugal, também obscura é essa madrugada lusa, de que não temos mais que rumores, pelo que a treva que rodeia ambas, a pívia e a fundação nacional, enquadrou a escolha.
Em tempos de Medievo Clássico [vide, para o efeito de definição conceptual, a periodização sugerida pela escola medievalista francesa], os condes, como o Magno Afonso do parágrafo anterior, tinham o direito de esfolar o “ceptro”, efectivamente, mas não usufruíam de toda a satisfação decorrente de tal esfacelamento. Na realidade, Afonso herdou do pai, o Conde Henrique, o direito de esgalhar o pessegueiro, mas a fazê-lo em nome, ou sob autoridade, melhor dizendo, do avô, o Imperador leonês Afonso VI, primeiro, e do primo, Afonso VII, depois. Ora, sendo esgalhar o pessegueiro divino manejo, frustrante se torna quando o deleitoso perfume do sublime fruto aproveita a outro. Dessa forma, todo o labor de Afonso Henriques foi no sentido de ser o aproveitador único do concúbito solitário, nomeadamente através da instituição de uma monarquia portucalense de jure e de facto, e não mera feudatária leonesa.
Para conseguir, politicamente, tocar ao bicho sozinho, Afonso Henriques lançou, muito apropriadamente, mão de um recurso revelador, ao mesmo tempo, de grande perspicácia política e, se estivermos atentos, de um duplo paradoxo. Para se eximir à suserania temporal leonesa, Afonso Henriques ofereceu o trono português, que conseguira já estabelecer, em vassalagem à suserania espiritual da vaticana cátedra de S. Pedro. Portugal, in custodia Deus, e Afonso Henriques, milites Sancti Petri, podiam agora livremente “aguçar a espada” e derramar a semente protonacional pelas planícies inframondeguinas, à custa dos cães de Mafoma.
Realce-se, então, o duplo paradoxo de que falávamos. Por um lado, a troca da suserania temporal pela suserania espiritual, de um sublime maquiavelismo avant la lettre, é mais uma lição de real politik que um paradoxo. Por outro lado, esse sim, o paradoxo de um Deus que puniu fatalmente Onã pela maldade de derramar a sua semente e ter protegido este Afonso que se propôs fazer exactamente o mesmo, com a agravante de nem sequer contar com o concurso de uma qualquer Tamar figurada, mas por auto-indução ejaculatória, politicamente falando, como já ficou vincado. Estranho Deus este que mata um judeu e abençoa um português, ou melhor, o primeiro português, aparecendo-lhe mesmo em vésperas de Ourique, por fazerem o mesmo. E aí está Ele, doces leitores, a marcar pontos junto do povo português. Povo escolhido? Claramente uma hipérbole!
Foi o desejo de manusear sozinho a vara, nomeadamente a da Justiça, de polir a lança, nomeadamente contra castelhanos e leoneses, de enterrar a espada, nomeadamente na mourama, que levou Afonso Henriques a encetar a fundação de um seu reino, para o que colaborou com as mãos ardentes e braços vigorosos dos portugueses. Resta-nos, portanto, meritíssimos e venerandos leitores, o historiográfico salto diacrónico até às mãos da contemporaneidade. Embora tenhamos regredido manualmente desde a Gaiola Pombalina à fundacional pívea afonsina, a progressão das últimas mãos destes quadros históricos que bosquejamos será cronológica, da “Liberal Sarapitola” à “Punheta Salazarista”.

«Sarapitola Liberal»
O Liberalismo é, por excelência, a filosofia do indivíduo. Alinhando os nossos canhões historiográficos por hegeliana mira poderíamos, com escatológicos tiros, arrombar as muralhas do Fim da História dizendo que a ascensão do Indivíduo seria o corolário do devir histórico. Todo o Tempo, necessariamente percebido em agostiniana linearidade, toda a Memória e toda a História nos teriam conduzido evolutivamente à Liberdade Absoluta do Indivíduo económico, político, religioso, intelectual, à não-agressão, ao direito de propriedade privada, à supremacia do indivíduo contra a tirania da comunidade.
Tudo o que se desviasse desse fito, por conseguinte, deveria ser lido como involução, degenerescência (lançando mão da imagética biologista de Oitocentos), atraso e regressão. O Fim da História Liberal pareceu, durante algum tempo, materializar-se. No entanto, o Liberalismo cedeu o lugar à Democracia e ao Socialismo, pretendidas à vez como Fins da História, nos mesmos termos descritos para o Liberalismo, o que, naturalmente, não se verificou em nenhum dos casos.
Mas divagamos insolentemente que isto não interessa nada. Não se pretende, é isso que nos importa fique solidamente patente, que releve do discurso sarapitolo-historiográfico em construção qualquer tipo de fatalismo escatológico. O Liberalismo foi um momento da libertação das mãos do povo português, mas esse percurso do devir histórico foi sucedido por outros, de pendor mais e menos punhetísticos, consoante os regimes socioeconómicos e as ideologias em confronto no momento.
Mas voltando ao Liberalismo, necessitou de se impor pela força a um Ancien Régime que, apesar de inviável por podre, tentou, atavicamente, forçar os portugueses a continuarem dormindo com as mãos atadas nas costas. Ao portuense êxtase de 24 de Agosto, sucederam-se a abolição dos poderes majestáticos da padralhada e a renovação da legislação fundiária, que, entre outras grandes transformações, destacamos em conjunto. Pretende-se, deste modo, chamar a atenção para a abolição dos bens de “mão-morta”! Notem, estimadíssimos e apreciadíssimos leitores, a designação deste tipo de bens: mão morta!
Ao mesmo tempo que se defende filosófica e ideologicamente (mais do que na prática, como a História do Liberalismo em Portugal demonstra) a liberdade individual de acção, de usar as próprias mãos para construir a felicidade individual, abatem-se, juridicamente, os resquícios do atavismo de antanho. Pretende-se oferecer aos portugueses a liberdade absoluta de jogar “bilhar de bolso” ad libitum [jogo do bilhar que, curiosamente, se popularizava precisamente nesta época]. Isto é, Portugal e os portugueses necessitavam e exigiam mãozinhas quentes e activas e não, naturalmente, mãos-mortas que não dariam gozo, nenhum, a ninguém. E, se porventura dessem e derem a alguém, falamos de gozo de mãos-mortas, para quem se perdeu, ali mais trás, há muitas camas livres no “motel Sobral Cid”, ou na “Residência Júlio de Matos”, ou na “Albergaria Conde Ferreira”, para esse “alguém”.
Liberdade política, religiosa, comunicacional e livre iniciativa económica, traduzem politicamente o aspecto mais brilhante do Liberalismo: o individualismo! E, se o indivíduo deve contar apenas com ele próprio, sempre, detentor como é de todo o potencial que Deus deu aos Homens por Ele amados, é em todas as facetas da vida humana que o assume, aperfeiçoando-se perenemente. Assim de Homens rectos e completos, nascerá uma Sociedade recta e completa. Por conseguinte, antes de contar com uma mão do outro, o Homem Liberal deve contar as suas duas mãos, usá-las para garantir a sua própria felicidade: fito último do Liberalismo.
Oh, especiosa idade da perfeição de fé profana, que profundas mudanças impuseste a essas mãos obscuras das eras puídas pela usura dos séculos, em que a vida do Homem lhe era alheia, posta em longínquas mãos, aristocráticas e eclesiásticas, que não o estimulavam, não o satisfaziam, não o libertavam! Agora o Homem tinha, pela primeira vez, o seu destino nas suas mãos e a sua própria satisfação estava ali, ao virar da esquina. Era, por fim, a emancipação humana por maioridade. Daqui decorre a escolha da designação para esta mão da História de Portugal: a Sarapitola Liberal. Sarapitola pelo toque do pitoresco linguajar popular, do sentir das massas, do Homem, aliás, de todos os homens.
Mas a tragédia do Homem é a sua divindade! A imperfeição inculca o fito da perfeição na insatisfação eterna dos “filhos de Adão”. Enfim, o Liberalismo, radical a um momento, cristalizou-se rapidamente limitando-se a aumentar as elites conservadoras e, política e socialmente, reacionárias. Foi sobrepujada a era liberal por uma outra era, de retorno do atavismo e das fórmulas de controlo da busca solitária e individual da felicidade. Voltou o bafio dos padres aos costumes e à moral. As elites encostadas ao poder, a economia corporativista castradora da iniciativa individual. Voltaram as mãos atadas nas costas numa nova menoridade do povo português. Bloqueando a possibilidade de cada provocar a sua auto-congratulação, o Estado Novo fez floresceu a punheta clandestina.

«Punheta Salazarista»
Antes de mais, a justificação de um título impõe-se. Cônscios da bagagem negativa que alguns vocábulos carregam, não devemos, eppur, evitá-los quando não existem outros de superior operatividade significante. Todo o período de vigência do autoritarismo salazarista foi, ao mesmo tempo, um período de expectivas, cumpridas e defraudadas, sacrifício, útil e desnecessário, ignorante passividade e indolência cívica, mas, ao mesmo tempo, abnegado sacrifício e luta persistente.
À bovina dormência cívica da sociedade portuguesa durante o Estado Novo deve opor-se, obrigatoriamente, a resistência. Esta, embora surda durante longuíssimos anos, nunca se extinguiu e enfrentou o prolongado estio da analfabeta indiferença social com o vigor do cacto que espera perseverantemente uma única gota de chuva para brotar as magníficas pétalas de que é fiel e devotado depositário. Por toda a variedade de significantes, sobre os quais não nos escusaremos a sumariamente elucubrar, o símbolo desta resistência é o ‘punho’! E, daí, a designação que escolhemos para esta mão da História de Portugal.
O punho fechado representa, por um lado, toda a frustação contida durante décadas pelo povo português que, passiva-agressivamente libertada num violento mas surdo punho cerrado, esperava um objecto de libertação da sua energia contido por um aparelho repressor. Por outro lado, não poderemos escamotear o punho como símbolo consolidado solidariedade, orgulho, militância e de resistência a um inimigo poderoso e opressivo, um ícone de concentração de forças, nomeadamente usado pelas forças de esquerda, comunistas e socialistas, correntes ideológicas e opções de organização sócio-económica fortemente perseguidas e duramente reprimidas pela máquina estado-novista.
Outra designação possível seria, por exemplo, “afiar o lápis azul” salazarista. Teria algumas virtualidades explicativas pois se, por um lado, ‘aguçar o lápis’ é uma locução facilmente compreensível e dentro do esquema espitemológico punhetístico que temos vindo a explorar, por outro lado, a referência ao lápis azul, enforma dois caracteres marcantes do salazarismo. Isto é, ao mesmo tempo que o “lápis azul” metonimiza a censura, em particular, e todo o aparelho repressivo, no geral, o azul do lápis pode ser lido, simultaneamente, como um violento “estrafegar do lápis”, coarctando-lhe a circulação sanguínea e deixando-o azulado, numa metáfora do aperto com que o Estado Novo cingiu “os coisos” ao país durante décadas.
Num estado de tipo fascista e não vamos alargar mais as definições sobre se é fascista, fascista de cátedra, fascizante, fascizóide, salazarista, salazarento, porque não cabem aqui essas necessidades de aprofundamento conceptual – além disso, não têm, garantidamente, nada a temer, pois o Moyle não tem interesse nenhum em transviar-vos para discussões historiográficas de elevadíssimo calibre e oceânica profundidade intelectual como a recente polémica entre Loffs e Ramos com Torgais, Mónicas e Fernandes. E este parágrafo fica aqui a fazer as vezes de um state of the art, que qualquer trabalho historiográfica que se preze deve ter!
Vale mais começar de novo. Num estado de tipo fascista, como dizíamos na aurora do parágrafo anterior, o sujeito não existe senão como umas parte do todo. Num estado corporativo, o todo (Estado) é mais que a soma das partes (Cidadãos) e cabe a estas humilharem-se para a ascensão daquele. Ou seja, numa leitura mais profunda de conceptualização, os portugueses andaram meio século a ‘espancar o palhaço’ [e talvez tenha aqui origem um certo desprezo dos poderes de então pelo painel dos artistas de rua de Almada Megreiros na Rocha Conde de Óbidos] para satisfação do Estado. Sendo a masturbação o sexo individual por excelência, abolindo o estado de tipo fascista o indivíduo por coerência, o sexo era todo em favor do Estado e, concomitantemente, da Igreja (os estados de tipo fascista precisam sempre de muitos soldados e a Igreja precisa sempre de muitas almas).
Como se calcula, então, que o resultado da equação: sexo + estado de tipo fascista = satisfação do estado. Ora, muito fácil e silogisticamente, senão vejamos. O estado promove sexo entre cidadãos, o estado retira o indivíduo de sexo, ergo o sexo estimula e satisfaz o estado (e não o indivíduo)! Sendo assim, ao mesmo tempo que manietou e infantilizou ideologicamente a sociedade portuguesa, obrigando-a a dormir com as mãos atadas nas costas, para impedir tentações onanistas, como se fazia aos miúdos, o Estado Novo, sonegando-lhe a cidadania e subtraindo ao indivíduo a individualidade em nome de um todo, pôs toda a sociedade portuguesa a bater-lhe segóvias para seu único e exclusivo proveito. Aliás, não podia deixar de ser doutra maneira em face da negação absoluta da possibilidade do egoísmo individualista. O menoscabamento das liberdades comunicacionais impediram, durante algum tempo, a divulgação da frustração, mas o apelo do punho cerrado e do apelo do direito ao egoísmo sensual, mas não só, trariam, eventualmente, a ruína desta funesta mão da História de Portugal.

O Clímax Anunciado
Bem sabe o Moyle que muito fica por dizer. Não estamos perante mais que um bosquejo, um esquisso, um esboço, escolhei o sinónimo que vos quadrar mais a preferência, de cada uma das mãos históricas, o qual, bosquejo, esquisso ou esboço, se apela seja desenvolvido por mentes mais novas, com mais energia e criatividade. Todavia, uma falta há que se destaca por toda a gravidade que a sua ausência acarreta. Olhando, ainda que au vol d’oiseau, o elenco das mãos históricas abordadas nota-se a falta do último quartel do século XX até final do milénio. Esteve debuxada uma mão histórica envolvendo esse lapso temporal da implantação democrática nos manejos da sociedade portuguesa, mas foi abandonada a sua prossecução. De facto, as últimas quatro décadas fazem parte de uma mesma mão histórica que ainda não terminou.
Se os portugueses tiveram a sensação de que finalmente tiveram a liberdade há muito prometida e adiada de se manejarem individualmente em extâses de autogratulação, libertos já de um Estado cuja relação com os cidadãos era de unilateral exigência das mãos destes para sua estimulação, nã realidade, esse oásis de egotismo amoroso foi pífio. Na realidade, os portugueses foram, nas últimas quase quatro décadas, bem oleados e entorpecidos para agora serem brutalmente sodomizados em seviciosas orgias por bancos, seguradoras, agências financeiras e outros gigantescos interesses que nos flagelam inapelavelmente com o látego da maioria parlamentar em exercício, num pesadelo inimaginável a qualquer Donaciano ou Leopoldo.
É possível e mesmo provável que os caros leitores tenham encontrado faltas ortográficas, gralhas tipográficas, referências pornográficas. É possível e mesmo provável que os caros leitores tenham encontrado tempos verbais não concordantes, aliterações dissonantes, metáforas repugnantes. É possível e mesmo provável que os caros leitores tenham encontrado pontuações censuráveis, figuras de estilo indecifráveis, locuções deploráveis. Tudo isto, caros leitores, é possível e mesmo provável, no entanto, o Moyle roga a vossa indulgência, que reputa infinita, para a urgência de apressar o fim.
Não houve tempo nem, sobretudo, disponibilidade para revisões. O Moyle precisou de sacudir-se deste texto antes que o mesmo lhe sujasse as mãos.

1/07/2013

Velho Novo Ano!


«Que 2013 não seja pior que 2012!», é a locução com que normalmente se proferem votos de saudação ao novo ano cá na terrinha. Não assombra, de resto! 

Naturalmente, isto só faz sentido num país onde a resignação bovina foi elevada aos píncaros e é celebrada como marca distintiva da psique colectiva portuguesa. Além disso, esta racionalização só colhe numa sociedade cuja cerviz, pisada secularmente pelo messianismo marrano e pelo purgatório purpúreo, esqueceu a aspiração à verticalidade.

Bom, a saudade que se canta por dá cá aquela palha deve ser saudades de andar de cabeça erguida, sem uma canga: religiosa, política, fiscal, ou outra!

Mas bem, sendo a metafísica «uma consequência de estar mal disposto», se calhar o Moyle comeu e bebeu demasiado na quadra saturnalina e está, apenas, a sofrer as consequências de indigestão. Para o ano que começa, este novo velho ano, tenhamos orgulho em exibir o jugo. É patriótico!

11/28/2012

Hello Africa, tell me how you're doin'!


Um dos processos mais interessantes dos nossos tempos, já que falamos nisso é também um dos mais deprimentes, consiste na inapelável africanização do nosso país. Não pensem, contudo, que este é mais uma daqueles delírios hiperbólicos que, invariavelmente, afectam os auto-observadores, ou seja, os comuns cidadãos, de Portugal, com notáveis consequências para a qualidade dessa mesma observação. Embora, enfim, se perceba a sucessão de ocorrências deste tipo. 

Quem sofre na pele as misérias quotidianas, tende, por algum motivo encoberto que se nos elude, a conferir-lhes valor e a centrar-se no próprio sofrimento mais que na necessidade de ser racional e ojectivo na análise dos fenómenos que provocam essas misérias e sofrimentos. Não devia ser assim? Talvez não, mas compreende-se que seja. Afinal de contas, para o pior e para o menos mau, somos humanos e, no degrau imediatamente a seguir, descendente, note-se, somos portugueses.

Ora, não se trata de mera hiperbolização de pendor diabolizante das elites, governativas  e outras, quando o Moyle chama a atenção para a africanização do nosso país. É mais simples do que isso. É tão simples que o Moyle vos vai oferecer o próximo parágrafo, uma pérola hipozeugmática perfeitamente desnecessária, em que desmonta a putativa complexidade dos termos envolvidos.

A tendência para uma democracia mais nominal que fáctica, a concomitância entre a sobrevalorização dos canais fáticos e o ocamento das mensagens políticas, a hipertrofia dos signos e o nihilismo de significantes dos períodos eleitorais, a mentira como unidade monetária do comércio político entre governantes e governados, o desmantelamento plutocrático da res publica e sua distribuição oligárquica, a cristalização nepotista das aristocracias partidárias, não ditaram a afirmação de estar o nosso país em processo de africanização.

Vemos que Portugal está a caminho da africanização, não tanto pela prevalência, ao longo da maior parte do ano, de valores UV elevadíssimos que nos estejam possivelmente a transformar em tostas e, portanto, a aumentar a melanina nas nossas dermes como acontece na margem sul, do Mediterrâneo, mas pela existência de semelhanças culturais assombrosas entre as elites governativas. Para isto ser uma coisa séria, mais que uma langonhice de letras com um conceito subjacente extremamente mal amanhado como de costume, passemos aos exemplos. Os factos são nosso amigos, nestes casos, e se, porventura, os factos infirmarem a teoria... bem, tanto pior para os factos. 

Dêem um saltinho ao Público e vejam esta notícia. Reconhecem a imagem? Sim, é mais ou menos aquela ali de cima. Ora, tantas linhas para quê? Parece um pouco surpreendente que o presidente do ANC, da África do Sul, Jacob Zuma, tenha sacrificado 12 vacas para se manter no Poder. Não parece nem humano nem, mais que isso, lógico. Talvez tenham feito grande churrascada em seguimento. Faria sentido convencer as pessoas pela pança e não os deuses pelo ritual. De certa forma, a estupidez da duodecatombe africana sairia mitigada.

De qualquer modo, o Sr. Zuma matou os bichos num ritual religioso. Como é natural, ninguém de bom senso acredita que este comportamento dê algum tipo de resultado pois estes sacrifícios são motivado por superstição e não por dados, factos, conhecimento, sabedoria. O mesmo acontece em Portugal neste momento e daí a tal questão da africanização! Zuma sacrificou doze vacas, Portas, Passos e Gaspar sacrificam 12 milhões de cidadãos em nome da sua permanência no Poder, logicamente, e em nome de uma superstição em que ninguém mais, notadamente ninguém de bom-senso, acredita: cumprir o memorando!

Se, porventura, acharem um pouco abusiva e ofensiva mesmo a comparação entre a morte dos pobres bovinos em África e a situação dos cidadãos portugueses por cá, peço-lhes que considerem estes particulares: Se o dono vergasta um bovino, que faz o bovino? Nada! Se o governo vergasta portugueses, que fazem os portugueses?
Quando o dono explora o trabalho do bovino para si e os seus, o bovino reclama? Não! Quando o governo explora o trabalho de portugueses, para si e os seus, os portugueses reclamam?
Sendo os bois alimentados e mantidos pelos donos, quem é verdadeiramente bovino nesta história?

11/26/2012

Martírios Crocantes e Cristianismos Mal-passados


É de todo lamentável que, nestes dias, ficcionais fracções de um indecomponível e inexistente todo que é o tempo, as pessoas não tenham disponibilidade para usufruir dos interlúdios desta tragédia permanentemente repetida a que, por economia de espaço, chamamos vida.
É verdadeiramente miserável que as pessoas levem demasiado a sério este violento rolar de ciclópico penedo monte acima, mais ainda porque não sairão vivas dele. É, por falta de coisas verdadeiramente boas, paroxisticamente triste que as gentes já não possam, ou talvez saibam, apreciar as coisas menos más da vida.
Nem sempre assim foi!
Cônscio é o Moyle da matriz bíblica que subjaz à arquetípica remissão para a sucessão das Idades do Homem, ou seja, de, à edénica Idade do Ouro, ter sucedido uma purgatória Idade do Ferro. De deleitosa primavera, em caliginosa invernia caiu-se por aquele desejo, tão ardente quão insano, de aceder às vedadas recendentes especiarias da potestática omnisciência, desmesura que reclamou a dolorosa retribuição por divinas mãos, que penamos por remir.
Ainda que cônscio, como se arrogava nos arranques do parágrafo precedente, de um adamismo matricial, não se coibirá o Moyle, contudo, de alertar para a afluência de paradigmas religiosos diversos para a construção intelectual de tal sucessão detractiva das Idades do Homem, nomeadamente das austrais margens balcânicas, terra da helénica síntese, africana por egipcíaca e asiática por fenícia.
No paraíso das adversativas, comecemos este parágrafo por ainda uma outra, pois ambos os parágrafos anteriores são alarmes para um afastamento apriorístico que o Moyle pretende salvaguardado nos recessos cerebrais dos agentes a jusante deste escrito.
Caros leitores, ainda que gerados pela demência febril de duas milenas gerações, esmagadas ainda pela racional insignificância da sua animalidade indomada, devoradas pelo vazio pré-consciente da sua bestial ignorância, os signos, ainda que paridos por religiosa cérvix, são de humana criação e, por conseguinte, preciosos de operatividade ainda que faltos de legitimidade.
Por tudo o que tem vindo a ser aduzido nesta literária pira funerária de que o bom-senso se evola em grossas volutas de acre fumo, ainda que cognisciente [étimo inventado agora mesmo] da arqueologia psicanalítica da construção intelectual das Idades do Homem e com todo o asco a que naturalmente essa origem nos remete, o Moyle lançará mão da sua aplicação, naturalmente secularizada em fórmula literária e enjeitando as supersticiosas brumas dos evos de antanho, como modelo operatório de construção discursiva.
Perdeu-se a ligação positiva do Homem com o mundo. À impossibilidade de bem estar consigo o Homem opunha uma resignação paciente, uma perseverança serena, uma resiliência animada que o levava a rir-se com divertimento do schléc schléc que os seus pés faziam ao tentar caminhar erecto no pântano da existência.
Sem deixar de ingloriamente tentar extrair sentido do absurdo do Ser e do absurdo de Ser, mascarando-o contudo da infame religião, o Homem mitigava o inerente sofrimento com uma inocente alegria, que não felicidade, note-se, tentando tirar partido do absurdo pela repetição do absurdo, num paradoxo que nos deu a única verdadeira criação da Humanidade, o único portal para aceder a uma divindade que não existe mas que podemos construir intelectualmente como hipérbole da medida humana: o riso.
Foi isso que se perdeu. Alhures no devir histórico, a sisudez esfaqueou violentamente a complacência humana e a benevolência para com a impossibilidade de significância da existência esvaiu-se até à mumificação. Hoje, as pessoas levam-se demasiado a sério, talvez esquecendo-se que não vivem para sempre e que, como um porco a dançar disco-sound, mais dia, menos dia, acabarão por esticar o pernil.
De todas as misérias que justificadamente lhes devemos assacar, as religiões e, nomeadamente, o Cristianismo – escolhendo-se esta refinada forma de superstição por proximidade, ou seja, por causa dos vizinhos do Moyle que, levantando-se cedo ao Domingo, se presume a sua cristianidade – o intumescimento da sisudez auto-contemplativa não é uma delas. De facto, basta uma pequena incursão aos primeiros tempos da cristandade para contemplarmos a acuidade deste postulado.
Pensemos no Paleo-Cristianismo, melhor, nos protagonistas dos titubeantes passos da sua afirmação enquanto superstição organizada. In illo tempore organizavam-se belos divertimentos, festas em condições, celebrações à séria. Como é que se fazia um cristão nos alvores da nazarenização? Meus lindos, basta passarem uma vista de olhos, ainda que ligeira, por um hagiológio. Um cristão fazia-se na fogueira, em grandes churrascadas com convivas aos milhares. Um dos episódios fundadores do cristianismo é uma refeição, a Última Ceia. O carpinteiro místico transformou água em vinho, multiplicou pães, pediu de beber quando estava vai, não vai, para bater a bota, por oxidação fulminante das articulações!
Reforcemos um aspecto crucial para a sustentação teórica desta incursão no domínio da História ficcional das religiões. Ou, como o inexistente arquitecto supremo dos pedreiros aventalados, fechemos com lítica chave a abóbada desta construção de filosofia palerma. Sendo o Homem uno com o Universo, sendo tudo, em todo o lado, ao mesmo tempo, a ritualização dessa unidade faz-se através da comunhão, ou seja, da comida. O Homem, ao comer, está a inserir em si o Universo e está a inserir-se no Universo. Daí, o aspecto crucial dos morfes na religião.
Porque é que isto se perdeu? Porque o Homem, ligou-se mais a si próprio do que ao Universo. Como nave anhota no proceloso mar das suas próprias limitações, o Homem perdeu-se nos ritos e desorientou-se do Mundo por traçar derrota para si próprio. E isso vê-se, por exemplo, na transformação da própria religião cristã – por consequência e não por acção –, desde que se viu cristalizada institucionalmente. Nos nossos tempos, os padres impõem o jejum a, imagine-se, toda a gente e não apenas a eles próprios, como seria de bom senso. Longos dias têm dois mil anos...
Se, quando primevo, o cristianismo santificou o Homem através da churrascada mística, em que, para manter a suculência da fé e o estaladiço da santidade, os cristãos eram feitos em lume brando, hoje, note-se em espanto, os padres, únicos produtores licenciados de cristãos, abandonaram os apreciados churrascos de outrora, a pingar sobre as rubras brasas o sabor da eternidade em cada pingo de deliciosa gordura mística, para se dedicarem às carnes menores, nomeadamente a comer miúdos em cru.

11/20/2012

Walking on Sunshine


Não é costume, mas desta vez há um refrão que o Moyle fará seu:

na lapela uma agulha adornada c'um brilhante
na orelha uma argola de pirata petulante
o andar afectado de quem anda nas alturas
espreitando do bolso um folheto com torturas
ou então um volume de cozinha libertária
que ninguém percebia ao fazer a culinária

todo o dia a jogar a um jogo de charadas
entre copos de absinto e mistelas inaladas
recitamos poemas em delírio fonético
inventamos dadá em registo frenético
e depois já cansados vamos todos para a cama
numa orgia colectiva que não vinha no programa

é preciso é estilo! não cansamos de dizer
num verniz de desdém que nos dá muito prazer
assumindo o deboche cada vez mais descarado
insurrectos em graça adorando o acto ousado
somos fãs da desbunda do deleite permanente
e assim passa o tempo e com ele nova gente

é preciso é estilo em delírio fonético
é preciso é estilo adorando o acto ousado
é preciso é estilo de pirata petulante
é preciso é estilo vamos todos para a cama
é preciso é estilo em deleite permanente
é preciso é estilo de quem anda nas alturas

(no Youtube)




11/18/2012

Futanari yume


O "Tozé" pode vir criticar o que quiser.
O "Tozé" pode clamar que nunca esteve no poleiro.
O "Tozé" pode vir criticar e clamar pessoalmente ou encomendá-lo, como faz: a credibilidade é a mesma.

O "Tozé" é igual ao Coelho e ao Portas.
O "Tozé" é igual ao Sócrates, que é igual ao Coelho que é igual ao Portas.
O "Tozé" é igual ao Coelho e ao Portas porque não é diferente do Coelho e do Portas.

O "Tozé" não faz oposição.
O "Tozé" não deseja eleições.
O "Tozé" não espera senão que lhe caia S. Bento no regaço.

O "Tozé" será tão inútil primeiro-ministro como o Cavaco presidente.
O "Tozé" será tão inútil primeiro-ministro como são agora os ministros da Educação e da Saúde.
O "Tozé" será tão inútil primeiro-ministro como as eleições que o Coelho e o Portas percam.

O "Tozé" pode vir criticar e clamar pessoalmente ou encomendá-lo, como faz: a credibilidade é a mesma.
O "Tozé" é igual ao Coelho e ao Portas porque não é diferente do Coelho e do Portas.
O "Tozé" não espera senão que lhe caia S. Bento no regaço.
O "Tozé" será tão inútil primeiro-ministro como as eleições que o Coelho e o Portas percam.

11/16/2012

AVE CAESAR MORITURI TE SALUTANT


O Ministro Miguel Macedo disse que a violência usada pela polícia (contra os seus próprios cidadãos) foi justificada. Já não é a primeira vez que este senhor deixa entender que aprecia uma democracia com "músculo".

Talvez o Macedónico ministro devesse deitar um olhinho, só de vez em quando, nada de muito exagerado, quanto mais não seja no tempo que passar no trono de cerâmica - embora seja para duvidar que estas sumidades semi-divinas padeçam de tais escatológicas premências - aos clássicos e aos modernos, à poesia  e ao romance, e à literatura em geral.

Podia ser que, se fizesse uma pausa da administração da internalidade nacional, desse de caras com o conceito de Justiça Poética. Os constantes arranques eméticos que emite em defesa da musculatura na relação do Estado com os seus cidadão, ao mesmo tempo que instrumentaliza as bófias todas (que, parecendo que não, também são pessoas), alcandoram-no a húbricas janelas, das quais arrisca nemésica defenestração.

Quem passa tanto tempo a justificar a violência pública, arrisca-se - ironias do Destino - a ser alvo de violência  privada justificada!

11/14/2012

O Inconveniente de Ter Nascido


Não tem o Moyle nenhum desejo particular de se ver reduzido a um mero troglodita com queda para o insulto e o palavrão. No entanto, vós, fofinhos, terão que convir que a cada passagem de globos oculares por um qualquer jornal, ou a cada exposição de pavilhões auriculares a um qualquer segmento noticioso, as e os merdas lá estão a esbanjar magníficas oportunidades para estarem calados e a meditar no absurdo da existência, quer a particular, quer a geral.

Nos dias que correm, lateja permanentemente nas têmporas um título de livro - nunca pelo Moyle lido - que reza O Inconveniente de Ter Nascido, do insone romeno Cioran. Não contem com elucubrações sobre filosofia, para o que o Moyle não está disponível de momento por se encontrar num paraíso tropical a convalescer de um gravíssimo caso de unhas encravadas. Parece, no entanto, que este livro tem um título perigoso, muito perigoso. É que mesmo as pessoas que meramente se limitem a passar por ele, sem nenhuma intenção de o lerem, podem, de um momento para o outro, reparar no título e pensar: «O Inconveniente de Ter Nascido? Quem?».

Sérgio Monteiro diz que é a altura de tirar medidas para erguer estátua a Passos Coelho. Se vos apetecer, dêem um salto ao Público, para ler a notícia e formarem uma opinião. Apesar de tudo o que cada um dos tristes habitantes desta terrinha [excluindo-se aqui a senhora bem alimentada que orienta a caridadezinha do Banco Alimentar] vê, ouve, sente e sofre todos os dias neste jardim à beira mal plantado, o certo é que, afinal, somos um povo de carneiros que não merecemos os pastores geniais e altruístas que nos conduzem. Fiquem apenas com esta meditação de um verdadeiro filósofo existencialista, o brasileiro Luís Filipe Scolari: «E o burro sou eu?».

10/04/2012

Gang Bang Style

Antes que isto morra, o que ninguém quer que aconteça, o Moyle pôs mãos à tecla para trazer um novo fiapo de estupidez que, tão rápida quanto escusadamente se verá, versa sobre um dos temas... melhor, O tema mais fracturante dos nossos dias: a Casa dos Segredos.
Não se trata de uma análise, antes de um documento, na forma de uma entrevista à hipotética mãe de uma putativa concorrente do concurso em epígrafe. Vamos lá então.

    Moyle: - Bom dia D.ª Y, que é, para o nosso público saber, mãe da nossa concorrente X. Como tem visto a participação da sua filha na Casa dos Segredos?

    Mãe de X: - Bons dias para o senhor, também. Tenho visto pela televisão. A minha filha está lá fechada, não dá para vê-la de outra maneira.

    Moyle: - Pois, claro que sim, mas não me devo ter explicado bem porque não era isso que queria perguntar. O que eu quero saber é a sua opinião sobre a participação da X nesta edição da Casa.

    Mãe de X: - Estou muito contente. Mas, a bem dizer, também estou um bocadinho desconsolada.

    Moyle: - Pode-nos explicar porquê?

    Mãe de X: - Estou muito contente com a minha rica filha, que é coisa mais linda e bem feitinha daquela maralha toda. É muito simplesinha, não é malcriada para ninguém, não gostam que lhe pisem os calos, como dizia o outro, mas é muito amiga do seu amigo. E é arrumadinha, não é como aquelas outras mulas que para lá andam. Deixam a roupa interior por todo o lado, em cima disto e daquilo. Aquelas serigaitas deslavadas, todas pintalgadas, que levam o dia a fumar cigarros, que parecem mesmo umas putas. 

    Moyle: - Mas é por causa das outras concorrentes que está “um bocadinho desconsolada” com a participação da sua filha?

    Mãe de X: - Não é por causa delas. Quer-se dizer, se calhar é também por causa delas. Mas o que eu noto que a minha X parece assim murchita. Ele é sempre tão dada e gaiteira e ali parece que anda em baixo. Parece um bocado envergonhada, às vezes. Assim as pessoas não reparam nela e mandam-na embora, que isto destes programas de televisão, já se sabe como é, a gente que liga a votar para sair só tem olhamento a quem entretém. Ela não é assim, como se tem mostrado.

    Moyle: - Mas acha que ela tem vergonha das câmaras de televisão?

    Mãe de X: - Vergonha acho que não é, porque ela teve um namorado que a filmou e disse que ela ainda ia ganhar uma nota a filmes e que ia tentar vender o filme deles os dois. Eu não vi, porque essas modernices de filmes e computadores e coisa e tal não são para a minha idade, mas ela disse-me que não teve vergonha nenhuma de estar na câmara de filmar e que tinha ficado muito bem. O público não está a ver a minha verdadeira menina. Ela não é aquilo que está a mostrar.
     
    Moyle: - Como assim?

    Mãe de X: - Só para ver como ela é dada e festeira vou-lhe contar uma. Quando foram os moçambicanos, que andavam a trabalhar nas obras da via-rápida nova, viver para o bairro, ela conhecia-os todos em menos de uma semana. Eles faziam-lhe uma festa quando a viam que nem queira saber. Levavam-na lá ao barracão e davam-lhe uns trocados para ela os ajudar nas lidas da casa. Já se sabe como são os homens quando se dão sem a mãezinha por perto. Mas coitadinha, aquilo fazia lá um calor terrível naquele barracão. E de andar a esfregar o chão e passar a ferro, ela vinha toda assada, de pernas alargadas e mais os joelhos esfolados. Mas não se importava, porque gostava de os ir ajudar, e bem vê o senhor como ela faz amigos num instantinho.

    Moyle: - Dá para perceber que sim, realmente!

    Mãe de X: - Quer ouvir outra? Quando a gente vai à feira dos ciganos, gostam tanto dela que traz sempre roupas de graça. Vai dentro carrinha para experimentar a roupa, os tendeiros das carrinhas à voltam vão lá e fazem fila para mostrar peças e no fim traz sempre de graça um carrego de roupa que nem a veste toda. Anda uns dias sem se conseguir sentar, porque a carrinha é baixa para provar a roupa e dá mau jeito às costas. Mas ela não se importa nada e os homens engraçam com ela por ser assim simpática. E também é bonita, a gente sabe como é nestas coisas.

    Moyle: - A senhora não estava a brincar quando disse que ela é muito dada. Sobretudo com homens.

    Mãe de X: - Ah, sim. A minha filhinha teve sempre muitos amigos rapazes. Amigas nem tanto. São umas falsas. Sabe como é, as invejas das colegas e das vizinhas. As outras sempre lhe tiveram um ciúme louco por ela ser a mais bonita, a mais bem vestida e ter os rapazes de volta dela. Mas ela cagou sempre de alto para essas vacas invejosas, essas as mesquinhas. Ela sai com os amiguinhos dela e passa sempre dois ou três dias com a garganta dorida que nem fala. É de rir com as brincadeiras deles, gritar e cantar nas discotecas. Mas não fuma, não bebe. É uma rapariga atinadinha.

    Moyle: - Até onde acha que a sua filha pode ir nesta Casa dos Segredos?

    Mãe de X: - Enquanto houver rapazes na casa ela vai sempre até ao fim. Com as vacas que lá estão a lançar boatos e a cortar na casaca pelas costas com segredinhos, ela não se aguenta muito. Mas já vi desde anteontem que ela saiu de ao pé das outras e começou a dormir uma noite ao pé de cada moço e acho que o público vai aperceber-se melhor do que ela é e ela vai-se aguentar até ao fim. Deviam era fazer camas maiores porque os pobres remexem-se a noite toda que mal cabem naquelas caminhas.

    Moyle: - A produção vai tomar nota dessa sugestão e, em meu nome e no do programa, esperemos que sim, que fique muito tempo. As audiências vão agradecer e os patrocinadores também.

    Mãe de X: - Eu é que agradeço muito.