Introdução Masturbatória
Expletiva
A
divisão da História em épocas, eras e episódios, em estruturas e conjunturas,
em ciclos e curvas, em temas e assuntos, em espaços, fronteiras e culturas, em
galerias de heróis e santos, semi-deuses e magos, reis e artistas, guerreiros e
especuladores, é uma necessidade imprescindível ao Homem. Sendo a História todo
o insondável reportório da actividade humana – de todos os seres humanos desde
a caliginosa noite dos tempos – a sua compartimentação, à vista da pequenez do
Homem, modesto mesteiral de divina obra, e por factores de índole operativa,
torna-se absolutamente inevitável. Não tendo como abarcar todo o proceloso e
oceânico manancial da História, o Homem canaliza-o e represa-o como pode, de
forma a retirar dele os ensinamentos que lhe aprendem o que e quem é. E, embora
o Passado não seja plácido lacustre espelho em que se reflecte indolentemente o
Futuro, é da sua conservação que, pelos seus sôfregos sorvedores nas opalinas krateras da Memória, se prepara este.
O
risco é, no entanto, perfeitamente evidente. A compartimentação do Todo
entorpece a experiência avassaladora do Todo. A necessidade de compartimentar a
História, veículo único para ler, compreender e aprender o Homem, leva à
diminuição da História às mãos dos espíritos menores, que tomam a parte, a sua ínfima
parte, pelo Todo, esse absoluto inalcançável, senão por deuses maiores que não
somos. Num paradoxo irresolúvel, é a pequenez inultrapassável do Homem que
germina as sementes que, enquanto lhe tapam a apolínea luz da História, o
elevam a vislumbrar as duramente merecidas centelhas fátuas desse Sol
transcendente.
Ainda
assim, o Moyle lançará, como humílimo servo, mais algumas sementes na gleba da
sabedoria dos filhos de Adão. Sabedor de obscurecer por ensaiar lançar luz, o
Moyle não abdicará de cumprir o seu Destino, de ser o Fado em si, alçar-se pela
humilhação, elevando-se aos diamantinos deuses pela assunção da sua excremental
transitoriedade. O Moyle vai, portanto, contribuir para o zeitgeist com uma visão parcelar da História, com a sugestão de
ainda mais um compartimento de um compartimento. Neste caso, uma parcela
desprezada da, já de si compartimental, História de Portugal: a História
onanística de Portugal.
Não
se tome, contudo, estes tentames por sádicas sevícias infligidas às vossas paciência
e inteligência, ou, por outro lado, um mero exercício masturbatório progénie da
indolente despreocupação de um desocupado. Muito pelo contrário, veremos que o
onanismo beneficia de um palpitante potencial de interpretação histórica e
construção historiográfica. Não sairão defraudadas as vossas paciência e
inteligência ao serem banhadas pelas virtudes da masturbação enquanto estrutura
histórica e, ao mesmo tempo, conceito que operacionaliza a interpretação de
várias “mãos” históricas.
Recusando
o Moyle encarreirar por epistemológicas veredas de Fim da História, não
deixará, contudo de assumir a sua esperança num futuro risonho e duradouro da
Democracia [no longo é árduo caminho de construção da utópica sociedade anárquica],
como suprema criação da mente humana. Ora, sendo a masturbação a mais democrática
forma de estimulação sexual, fica claramente exposto o potencial de
operacionalização interpretativa do História de Portugal em quadros
onanísticos. É que, apesar do potencial com que todos [ou quase] nascem para a
sua prática, o sexo não é democrático e para muita gente os deleitosos
transportes de dos mesteres de Vénus assumem, inclusivamente, laivos de impossibilidade.
A masturbação não! A prática do auto-sexo tem ajudado, durante milénios, a
lançar, aos cidadãos de sexualidade reduzida, a rampa de acesso aos deliciosos
palácios de Afrodite. O culto solitário a Astarte tem reposto uma democrática
justiça em favor dos feios, dos doentes, dos ascorosos, dos padres e freiras, dos
envergonhados, dos ejaculadores precoces, dos filiados no CDS e de todo um nunca
mais acabar de infelizes que a Fortuna madrasta tem afastado miseravelmente do
lânguido amplexo de Voluptas, do macio seio de Hédone, dos libidinosos salões
de Freia.
Na
realidade e consequentemente, para potenciar a operatividade do conceito,
sugerimos que termos e conceitos como “correntes”, “ondas”, “movimentos”, “ciclos”,
sejam estéticas, mentais, político-sociais, económicas ou outras, vulgarmente
usados por necessidade do historiador e comodidade do leitor, se substituam, em
termos de aplicação do conceito punhetístico, por “mãos”. Desta forma,
dividiremos a História onanística de Portugal em seis “mãos”, a que poderão,
por intermédio de estudos subsequentes e de caso, acrescer-se outras “sub-mãos”
que valorizem operativamente a compreensão histórica.
É no
entanto, com humildade, como rasteiro fruto que somos das gónadas do tempo, do
espaço e do contexto, que oferecemos ao escrutínio dos leitores estas propostas
de análise e interpretação que alicerçamos, naturalmente, em periodizações previamente
elaboradas e razoavelmente consolidadas da História deste pequeno país, deste diminuto
povo e desta sua modesta cultura. Por conseguinte, não se pretende refazer a
História de Portugal, antes contribuir para o seu aprofundamento com este singelo
acréscimo epistemológico que, reunido aos quadros conceptuais vigentes, robustecerá
as raízes da árvore que nos alcandorará à luz. Além disso, a cada uma das “mãos”,
em que será dividido o percurso civilizacional dos portugueses, será atribuída
uma denominação tradicional para os dulcíssimos manejos do auto-amor.
Chama-se
a atenção, contudo, para a subjectividade imanente a todas as opções
epistemológicas. As “mãos” da História de Portugal propostas são e serão,
deseja-se em nome da Ciência e da Arte da História, discutíveis e discutidas.
Escusar-nos-emos, no entanto, de justificar os méritos de cada uma das
sugestões apontadas por não se maçar a paciência do leitor, por um lado, e não
ser este o fórum para debater e “bater” a História, por outro. Além do mais,
resulta claro para qualquer leitor minimamente atento que o Moyle divulga,
através deste arremedo ensaístico, a sua visão individualista do Mundo e da
Sociedade, recuperando mas não se esgotando em grandes masturbadores do
intelecto como Hobbes, Locke e Rousseau, por exemplo. Não caiamos, no entanto,
na confusão abusivamente repetida, de individualismo com egotismo. Na sociedade
como na masturbação, a valorização do EU não pressupõe a negação do e ao OUTRO.
Há sempre espaço, mesmo perante fortes constrangimentos alógenos, para o
exercício da individualidade. Mas, enfim, contentar-nos-emos, de momento, em
visitar esta novidade epistemológica, divulgando-a a todos os vós, meritíssimos
leitores.
«Gaiolas Pombalinas»
Este
ensejo de nova periodização da História de Portugal, baseada em critérios
epistemológicos masturbatórios, nasce de uma pérola que, como o proverbial
gato, tem permanecido teimosamente escondida à vista de todos nos séculos
decorridos desde aquela cataclísmica véspera do dia dos mortos de 1755. De
facto, o terramoto que devastou a cabeça do Império luso deu o mote para que
assumisse o leme do barco anhoto, que era o reino português, nas horas que se
seguirem à assombrosa manhã, essa sim verdadeiramente submersa, o marquês de
Pombal. Esse Sebastião José, cujo soberbo pulso foi, além do marquesado, galardoado
com o condado de Oeiras, impôs uma vontade, um rumo, uma direcção despótica,
embora esclarecida e feliz nos seus propósitos.
A
reconstrução de uma Lisboa arrasada até aos caboucos epitomiza a reconstrução
de um Portugal prostrado por quase dois centénios de réplicas de obscuridade
supersticiosa que, desde o terramoto primordial dos Habsburgos em 1581, vinham esfolando
o reino de Portugal. Eis, portanto, um dos episódios nucleares de derramamento
da semente histórica que, castrando um passado flácido, se ergue para a
promessa de um futuro pulsante.
Depois
da violenta irrupção de energias telúricas, depois das venenosas dimanações
gasosas, depois do escatológico holocausto de chamas, depois do diluviano
afogamento tsunâmico, o suspiro. Depois do suspiro, a mão de ferro e a vontade
lítica de um homem fitando o futuro e que, entre a desolação, o pranto e a
miséria, ousou semear a grandeza de um futuro à prova de sismos. Mas essa
vontade de manipular o presente para construir um futuro em que jorrasse a
felicidade generalizada deveria, antes de tudo, garantir que o desastre não se
repetiria. Assim nasceu a “Gaiola Pombalina”.
No
reinado antecedente, a que poderíamos, nesta madrugada da história onanística
de Portugal, designar por “pré-gaiola”, concretizou-se uma tendência anterior
de reforço da individuação do exercício da monarquia, com o rei D. João V a pugnar
por assumir sozinho o “polimento do ceptro real”. O clímax desta pessoalização do
esgarçamento potestático atinge-se, porém, em tempos de D. José. De notar que a
intermediação de Pombal não esmorece o reforço do “mono” em monarquia, antes funcionando
como estimulante do mesmo, pois o abate dos “Grandes” e o derrube da
“Companhia”, mostra-nos claramente que a Coroa assumiu definitivamente a
reserva do “ceptro” do rei, passando o monarca a manuseá-lo pessoalmente, ou depositando
o ceptro num par de mãos seleccionadas e de confiança, e não à balda para quem
lhe quisesse deitar a mão.
Toda
a gente já ouvira falar da “Gaiola Pombalina”, mas ninguém reparara que esta
designação não se aplicava apenas à mera aplicação prática dos primeiros
estudos experimentais em engenharia civil anti-sísmica conhecidos no mundo. Mais
do que uma solução de engenharia, preventora do colapso da estrutura
arquitectónica sujeita às pressões e torções exercidas pelas violentas
libertações de energia tectónica, mais do que a materialização de uma nova
visão do mundo e de uma nova atitude perante o Universo, baseada na Razão e na
ciência prática, a “Gaiola Pombalina” designa a opção da Coroa neste período.
Pondo o seu ceptro num, apenas, par de mãos, D. José viu Sebastião José de
Carvalho e Melo, o Conde de Oeiras, passar todo o reinado a fazer-lhe gaiolas,
passadas à História como pombalinas, com pulso firme e suaves palmas
aristocráticas.
«Segóvia Filipina»
Esta
é uma “mão” terrível da história de Portugal. Não teremos a pretensão vazia e
absurda de objectividade absoluta, de neutralidade olímpica, de asséptica
esterilidade intelectual. A escrita da História exige a assumpção da
impossibilidade do isolamento laboratorial da amostra. Por essa razão se assume
aquilo que pode considerado um julgamento de valor ao apodar-se esta mão da
História como sendo terrível.
Depois
do ponto alto que foi o «olear do Galeão» manuelino, esta mão foi muito difícil
e serão precisos quase dois séculos para que a gaiola pombalina dissolva os
efeitos nefastos deste período. E se, nas primeiras décadas, não se notou de
forma muito negativa a influência da castelhanização, os reinados do filho e do
neto de Filipe II foram traumáticos.
Em
que consiste, portanto, a «Segóvia pombalina»? Se a designação adoptada nos
parece perfeitamente auto-explicativa, a explicação carece de cuidado
epistemológico que promova a honestidade intelectual e restrinja os escolhos panfletários
de primarismo anticastelhano. A grande questão, o elemento central que confere
um forte peso de negatividade a esta mão histórica passa, precisamente, por um
excesso de mãos, no que diz respeito ao exercício dos poderes. Mas não só!
Em
pleno Antigo Regime ibérico, em contraciclo tridentino com as auspiciosas
experiências do Humanismo individualista, as mãos ocupam-se a bater no peito e
a acender fogueiras para expiar culpas alimentadas a judeus, esquecendo a sua
função autocongratulatória.
O
trabalho é controlado pela sociedade através das cristalizadas e rígidas corporações
de origem mediévica, a que se junta uma muito pobre inovação tecnológica que, a
aplicar-se ao trabalho artesanal, naturalmente, libertaria as mãos da população
e, pela democraticidade da satisfação individual, teria acelerado, como
aconteceu após a Revolução Industrial, a mudança política e cultural.
A
economia é de tipo mercantilista, valorizando-se a acumulação em testiculares
cofres e não a difusão dos fluidos monetários através do investimento. Releve-se
que, apesar de ser o comércio o alavancador da economia pré-industrial, o
comunitarismo agrário continua a marcar os quotidianos da maioria da população.
A
sociedade encontra-se impedida da sua libertação onanística porquanto se vê de mãos
postas, em preces e súplicas, bloqueando os padres, com ígneas tormentas, a
consumação das doçuras da estimulação própria ao povo. Bloqueando-se os
burgueses ao auto-amor por quererem ser aristocratas, desprezando estes as
volúpias da carícia restrita por andarem ocupados a conspirar para acumular
honras, cargos e propriedades.
O Poder,
ao mesmo tempo que se anuncia monárquico, encontra-se espalhado por muitas mãos
(poderes locais autárquicos, foros eclesiásticos e corporativos, isenções e
privilégios aristocráticos, e todas as fórmulas conhecidas de fragmentação do
poder no Ancien Régime que contrastam
com o aprofundamento do discurso absolutista), sendo que as do Rei nem tocam no
próprio ceptro, ao contrário de todas as outras. O valimento, podendo ser lido ingenuamente como erosão do poder
monárquico, funciona, precisamente pelo contrário, como cimento desse mesmo
poder.
Fanatismo
religioso, mercantilismo económico e forte comunitarismo agrário,
corporativismo laboral e limitada industrialização, estamentos sociais
bloqueados na mobilidade ascendente, descendente, ascendente, descendente,
ascendente, descendente e… por aí fora. Tempos negros para o nosso país,
claramente em perda em termos de esgalhamento do pessegueiro!
«Vascolejar Manuelino»
Uma
das vertentes mais importantes e interessantes desta mão histórica, que precede
a anterior cronologicamente mas será aqui esgalhada posteriormente, é o seu
carácter misto. Ou seja, reúne aspectos extremamente positivos e presidirá a um
dos momentos mais importantes da História de Portugal, por um lado e, por outro,
encerra em si as sementes de entropia que, subsequentemente e depois de
germinadas durante a “segóvia filipina”, se manterão até à transformação
profunda trazida pela “sarapitola liberal”.
O
reinado do Venturoso é, todos o sabem, o reinado da concretização das
descobertas geográficas iniciadas décadas antes por mui bons “oleadores da
caravela” como o Infante D. Henrique e D. João II. Mas a Terra abre-se em
tempos de D. Manuel e, assim que podem, os portugueses aproveitam imediatamente
para espalhar a semente por todo o neófito mundo. Podendo-se, pois, dizer agora
com toda a propriedade todo o mundo.
Claramente,
o verbo “vascolejar” incide num nome maior da História de Portugal, o Homem que
em nome de um povo casou o Índico com o Atlântico, o Oriente com o Ocidente, a
Ásia com a Europa, o mar de Timor ao Mar da Palha. No entanto, a escolha do
apodo “vascolejar” remete para o domínio do simbólico, do icónico. Cremos fundamental,
por conseguinte, relevar a tecnologia de viagem e transporte da época –
tecnologia da ponta, note-se – os galeões. Pensemos que, sem um eficaz
“oleamento do galeão”, não há transportes e vascolejar torna-se difícil,
possível sim mas impraticável, e isto tanto é válido literal como
metaforicamente. Concretizemos no parágrafo seguinte.
O
galeão eficazmente oleado suportava a viagem e a afluência na bisonha Europa
das preciosas especiarias da Ásia. Em sentido figurado e onanisticamente falando,
é “oleando o galeão” que se acede aos preciosos transportes de especioso deleite
e doce efusão. Adivinha-se, contudo, que a torpeza de certas mentes acabará por
sugerir uma associação entre as brancas espumas oceânicas e as brancas espumas
de… Ai de nós, caros leitores, deixemos esses opróbrios para ignominiosas
mentes!
Mas
começámos por relevar a particular ambiguidade na definição desta mão histórica,
quedando-se ainda por concretizar tal ensejo. Ao ponto alto da História de
Portugal, que levou os portugueses a vascolejar-se onde nenhum outro ser humano
se manuseara, contribuindo para a partilha civilizacional de técnicas de
automanejamento, contrapõe-se o juncar das sementes daninhas que infestaram a
História portuguesa nos séculos seguintes e que descrevemos no capítulo anterior.
Ou melhor, para mantermos a coerência do simile,
a manipulação de galeões deixou nas mãos farpas de madeira que levaram à
trágica recusa de auto-amor que durou genericamente da Segóvia dos Filipes à
Sarapitola do Liberalismo.
A
posição portuguesa revelou-se insustentável pois a Coroa portuguesa não
partilhou o esgarçamento. D. Manuel, ao apostar no monopólio régio de tratos
orientais fechou a porta à generalização social da aventura manual portuguesa
por mares nunca dantes esgarçados. Dessa forma, para investir na Carreira da
Índia – centralizando e assumindo, portanto, as receitas e as brutais despesas
de investimento – pôs-se na dependência de casas financeiras e, dos deleites do
auto-estrafegamento onanista nacional, passou a servir os real e popular
rabinhos à mesa das codiciosas casas financeiras, que então se formavam,
iguaria de que estas, codiciosamente, se serviram durante séculos. Além disso e
para abreviar que a coisa já se torna cediça, não esqueçamos o ódio púrpura aos
requintes do vascolejamento [vide a tragédia de Onã] e, com os galeões que iam
e vinham, a padralhada ia e ficava, destroçando o pórtico da felicidade que se
escancarava para a humanidade.
«Pívia Afonsina»
Épica
aventura teve lugar em alvores da undécima centúria da Graça! Às mãos do
pequeno conde Afonso, de trans e cisalpina mestiçagem, derramou-se pela poeira
do maometano ocaso da Ibéria o semen
de novo reino prometido ao futuro. A quase milenar improbabilidade da gesta
permite-nos, para o que rogamos a indulgência dos queridíssimos leitores, um
pequeno arroubo poético, impado de orgulho, posto em tão valorosos avós.
Eis-nos,
portanto, continuando em regresso cronológico, na nossa mão primacial, nos
primeiros sacões da autocópula lusitana. Assim como é obscura a origem do termo
popular escolhido para apodar esta mão de primórdio da História de Portugal,
também obscura é essa madrugada lusa, de que não temos mais que rumores, pelo
que a treva que rodeia ambas, a pívia e a fundação nacional, enquadrou a
escolha.
Em
tempos de Medievo Clássico [vide, para o efeito de definição conceptual, a
periodização sugerida pela escola medievalista francesa], os condes, como o Magno Afonso do parágrafo anterior, tinham
o direito de esfolar o “ceptro”, efectivamente, mas não usufruíam de toda a
satisfação decorrente de tal esfacelamento. Na realidade, Afonso herdou do pai,
o Conde Henrique, o direito de esgalhar o pessegueiro, mas a fazê-lo em nome,
ou sob autoridade, melhor dizendo, do avô, o Imperador leonês Afonso VI,
primeiro, e do primo, Afonso VII, depois. Ora, sendo esgalhar o pessegueiro divino
manejo, frustrante se torna quando o deleitoso perfume do sublime fruto
aproveita a outro. Dessa forma, todo o labor de Afonso Henriques foi no sentido
de ser o aproveitador único do concúbito solitário, nomeadamente através da
instituição de uma monarquia portucalense de
jure e de facto, e não mera
feudatária leonesa.
Para
conseguir, politicamente, tocar ao bicho sozinho, Afonso Henriques lançou,
muito apropriadamente, mão de um recurso revelador, ao mesmo tempo, de grande
perspicácia política e, se estivermos atentos, de um duplo paradoxo. Para se
eximir à suserania temporal leonesa, Afonso Henriques ofereceu o trono
português, que conseguira já estabelecer, em vassalagem à suserania espiritual
da vaticana cátedra de S. Pedro. Portugal, in
custodia Deus, e Afonso Henriques, milites
Sancti Petri, podiam agora livremente “aguçar a espada” e derramar a
semente protonacional pelas planícies inframondeguinas, à custa dos cães de
Mafoma.
Realce-se,
então, o duplo paradoxo de que falávamos. Por um lado, a troca da suserania
temporal pela suserania espiritual, de um sublime maquiavelismo avant la lettre, é mais uma lição de real politik que um paradoxo. Por outro
lado, esse sim, o paradoxo de um Deus que puniu fatalmente Onã pela maldade de derramar
a sua semente e ter protegido este Afonso que se propôs fazer exactamente o
mesmo, com a agravante de nem sequer contar com o concurso de uma qualquer
Tamar figurada, mas por auto-indução ejaculatória, politicamente falando, como já
ficou vincado. Estranho Deus este que mata um judeu e abençoa um português, ou
melhor, o primeiro português, aparecendo-lhe mesmo em vésperas de Ourique, por
fazerem o mesmo. E aí está Ele, doces leitores, a marcar pontos junto do povo
português. Povo escolhido? Claramente uma hipérbole!
Foi
o desejo de manusear sozinho a vara, nomeadamente a da Justiça, de polir a
lança, nomeadamente contra castelhanos e leoneses, de enterrar a espada,
nomeadamente na mourama, que levou Afonso Henriques a encetar a fundação de um
seu reino, para o que colaborou com as mãos ardentes e braços vigorosos dos
portugueses. Resta-nos, portanto, meritíssimos e venerandos leitores, o historiográfico
salto diacrónico até às mãos da contemporaneidade. Embora tenhamos regredido
manualmente desde a Gaiola Pombalina à fundacional pívea afonsina, a progressão
das últimas mãos destes quadros históricos que bosquejamos será cronológica, da
“Liberal Sarapitola” à “Punheta Salazarista”.
«Sarapitola Liberal»
O
Liberalismo é, por excelência, a filosofia do indivíduo. Alinhando os nossos
canhões historiográficos por hegeliana mira poderíamos, com escatológicos tiros,
arrombar as muralhas do Fim da História dizendo que a ascensão do Indivíduo seria
o corolário do devir histórico. Todo o Tempo, necessariamente percebido em
agostiniana linearidade, toda a Memória e toda a História nos teriam conduzido
evolutivamente à Liberdade Absoluta do Indivíduo económico, político, religioso, intelectual, à não-agressão, ao direito de propriedade
privada, à supremacia do indivíduo
contra a tirania da comunidade.
Tudo
o que se desviasse desse fito, por conseguinte, deveria ser lido como involução,
degenerescência (lançando mão da imagética biologista de Oitocentos), atraso e
regressão. O Fim da História Liberal pareceu, durante algum tempo,
materializar-se. No entanto, o Liberalismo cedeu o lugar à Democracia e ao
Socialismo, pretendidas à vez como Fins da História, nos mesmos termos
descritos para o Liberalismo, o que, naturalmente, não se verificou em nenhum
dos casos.
Mas
divagamos insolentemente que isto não interessa nada. Não se pretende, é isso
que nos importa fique solidamente patente, que releve do discurso
sarapitolo-historiográfico em construção qualquer tipo de fatalismo
escatológico. O Liberalismo foi um momento da libertação das mãos do povo
português, mas esse percurso do devir histórico foi sucedido por outros, de
pendor mais e menos punhetísticos, consoante os regimes socioeconómicos e as
ideologias em confronto no momento.
Mas
voltando ao Liberalismo, necessitou de se impor pela força a um Ancien Régime que, apesar de inviável
por podre, tentou, atavicamente, forçar os portugueses a continuarem dormindo
com as mãos atadas nas costas. Ao portuense êxtase de 24 de Agosto,
sucederam-se a abolição dos poderes majestáticos da padralhada e a renovação da
legislação fundiária, que, entre outras grandes transformações, destacamos em
conjunto. Pretende-se, deste modo, chamar a atenção para a abolição dos bens de
“mão-morta”! Notem, estimadíssimos e apreciadíssimos leitores, a designação
deste tipo de bens: mão morta!
Ao
mesmo tempo que se defende filosófica e ideologicamente (mais do que na
prática, como a História do Liberalismo em Portugal demonstra) a liberdade
individual de acção, de usar as próprias mãos para construir a felicidade
individual, abatem-se, juridicamente, os resquícios do atavismo de antanho.
Pretende-se oferecer aos portugueses a liberdade absoluta de jogar “bilhar de
bolso” ad libitum [jogo do bilhar que,
curiosamente, se popularizava precisamente nesta época]. Isto é, Portugal e os
portugueses necessitavam e exigiam mãozinhas quentes e activas e não,
naturalmente, mãos-mortas que não dariam gozo, nenhum, a ninguém. E, se porventura
dessem e derem a alguém, falamos de gozo de mãos-mortas, para quem se perdeu,
ali mais trás, há muitas camas livres no “motel Sobral Cid”, ou na “Residência
Júlio de Matos”, ou na “Albergaria Conde Ferreira”, para esse “alguém”.
Liberdade
política, religiosa, comunicacional e livre iniciativa económica, traduzem
politicamente o aspecto mais brilhante do Liberalismo: o individualismo! E, se
o indivíduo deve contar apenas com ele próprio, sempre, detentor como é de todo
o potencial que Deus deu aos Homens por Ele amados, é em todas as facetas da
vida humana que o assume, aperfeiçoando-se perenemente. Assim de Homens rectos
e completos, nascerá uma Sociedade recta e completa. Por conseguinte, antes de
contar com uma mão do outro, o Homem Liberal deve contar as suas duas mãos,
usá-las para garantir a sua própria felicidade: fito último do Liberalismo.
Oh, especiosa
idade da perfeição de fé profana, que profundas mudanças impuseste a essas mãos
obscuras das eras puídas pela usura dos séculos, em que a vida do Homem lhe era
alheia, posta em longínquas mãos, aristocráticas e eclesiásticas, que não o
estimulavam, não o satisfaziam, não o libertavam! Agora o Homem tinha, pela
primeira vez, o seu destino nas suas mãos e a sua própria satisfação estava
ali, ao virar da esquina. Era, por fim, a emancipação humana por maioridade.
Daqui decorre a escolha da designação para esta mão da História de Portugal: a
Sarapitola Liberal. Sarapitola pelo toque do pitoresco linguajar popular, do
sentir das massas, do Homem, aliás, de todos os homens.
Mas
a tragédia do Homem é a sua divindade! A imperfeição inculca o fito da
perfeição na insatisfação eterna dos “filhos de Adão”. Enfim, o Liberalismo,
radical a um momento, cristalizou-se rapidamente limitando-se a aumentar as
elites conservadoras e, política e socialmente, reacionárias. Foi sobrepujada a
era liberal por uma outra era, de retorno do atavismo e das fórmulas de
controlo da busca solitária e individual da felicidade. Voltou o bafio dos
padres aos costumes e à moral. As elites encostadas ao poder, a economia
corporativista castradora da iniciativa individual. Voltaram as mãos atadas nas
costas numa nova menoridade do povo português. Bloqueando a possibilidade de
cada provocar a sua auto-congratulação, o Estado Novo fez floresceu a punheta
clandestina.
«Punheta Salazarista»
Antes
de mais, a justificação de um título impõe-se. Cônscios da bagagem negativa que
alguns vocábulos carregam, não devemos, eppur,
evitá-los quando não existem outros de superior operatividade significante.
Todo o período de vigência do autoritarismo salazarista foi, ao mesmo tempo, um
período de expectivas, cumpridas e defraudadas, sacrifício, útil e desnecessário,
ignorante passividade e indolência cívica, mas, ao mesmo tempo, abnegado sacrifício
e luta persistente.
À bovina
dormência cívica da sociedade portuguesa durante o Estado Novo deve opor-se, obrigatoriamente,
a resistência. Esta, embora surda durante longuíssimos anos, nunca se extinguiu
e enfrentou o prolongado estio da analfabeta indiferença social com o vigor do
cacto que espera perseverantemente uma única gota de chuva para brotar as
magníficas pétalas de que é fiel e devotado depositário. Por toda a variedade
de significantes, sobre os quais não nos escusaremos a sumariamente elucubrar,
o símbolo desta resistência é o ‘punho’! E, daí, a designação que escolhemos
para esta mão da História de Portugal.
O
punho fechado representa, por um lado, toda a frustação contida durante décadas
pelo povo português que, passiva-agressivamente libertada num violento mas surdo
punho cerrado, esperava um objecto de libertação da sua energia contido por um
aparelho repressor. Por outro lado, não poderemos escamotear o punho como
símbolo consolidado solidariedade, orgulho, militância e de resistência a um
inimigo poderoso e opressivo, um ícone de concentração de forças, nomeadamente
usado pelas forças de esquerda, comunistas e socialistas, correntes ideológicas
e opções de organização sócio-económica fortemente perseguidas e duramente reprimidas
pela máquina estado-novista.
Outra
designação possível seria, por exemplo, “afiar o lápis azul” salazarista. Teria
algumas virtualidades explicativas pois se, por um lado, ‘aguçar o lápis’ é uma
locução facilmente compreensível e dentro do esquema espitemológico
punhetístico que temos vindo a explorar, por outro lado, a referência ao lápis
azul, enforma dois caracteres marcantes do salazarismo. Isto é, ao mesmo tempo
que o “lápis azul” metonimiza a censura, em particular, e todo o aparelho
repressivo, no geral, o azul do lápis pode ser lido, simultaneamente, como um
violento “estrafegar do lápis”, coarctando-lhe a circulação sanguínea e
deixando-o azulado, numa metáfora do aperto com que o Estado Novo cingiu “os coisos”
ao país durante décadas.
Num estado
de tipo fascista e não vamos alargar mais as definições sobre se é fascista, fascista
de cátedra, fascizante, fascizóide, salazarista, salazarento, porque não cabem
aqui essas necessidades de aprofundamento conceptual – além disso, não têm, garantidamente,
nada a temer, pois o Moyle não tem interesse nenhum em transviar-vos para discussões
historiográficas de elevadíssimo calibre e oceânica profundidade intelectual como
a recente polémica entre Loffs e Ramos com Torgais, Mónicas e Fernandes. E este
parágrafo fica aqui a fazer as vezes de um state
of the art, que qualquer trabalho historiográfica que se preze deve ter!
Vale
mais começar de novo. Num estado de tipo fascista, como dizíamos na aurora do parágrafo
anterior, o sujeito não existe senão como umas parte do todo. Num estado
corporativo, o todo (Estado) é mais que a soma das partes (Cidadãos) e cabe a
estas humilharem-se para a ascensão daquele. Ou seja, numa leitura mais
profunda de conceptualização, os portugueses andaram meio século a ‘espancar o
palhaço’ [e talvez tenha aqui origem um certo desprezo dos poderes de então
pelo painel dos artistas de rua de Almada Megreiros na Rocha Conde de Óbidos] para
satisfação do Estado. Sendo a masturbação o sexo individual por excelência, abolindo
o estado de tipo fascista o indivíduo por coerência, o sexo era todo em favor
do Estado e, concomitantemente, da Igreja (os estados de tipo fascista precisam
sempre de muitos soldados e a Igreja precisa sempre de muitas almas).
Como
se calcula, então, que o resultado da equação: sexo + estado de tipo fascista =
satisfação do estado. Ora, muito fácil e silogisticamente, senão vejamos. O
estado promove sexo entre cidadãos, o estado retira o indivíduo de sexo, ergo o sexo estimula e satisfaz o estado
(e não o indivíduo)! Sendo assim, ao mesmo tempo que manietou e infantilizou
ideologicamente a sociedade portuguesa, obrigando-a a dormir com as mãos atadas
nas costas, para impedir tentações onanistas, como se fazia aos miúdos, o Estado
Novo, sonegando-lhe a cidadania e subtraindo ao indivíduo a individualidade em
nome de um todo, pôs toda a sociedade portuguesa a bater-lhe segóvias para seu único
e exclusivo proveito. Aliás, não podia deixar de ser doutra maneira em face da
negação absoluta da possibilidade do egoísmo individualista. O menoscabamento das
liberdades comunicacionais impediram, durante algum tempo, a divulgação da
frustração, mas o apelo do punho cerrado e do apelo do direito ao egoísmo
sensual, mas não só, trariam, eventualmente, a ruína desta funesta mão da
História de Portugal.
O Clímax Anunciado
Bem sabe
o Moyle que muito fica por dizer. Não estamos perante mais que um bosquejo, um
esquisso, um esboço, escolhei o sinónimo que vos quadrar mais a preferência, de
cada uma das mãos históricas, o qual, bosquejo, esquisso ou esboço, se apela
seja desenvolvido por mentes mais novas, com mais energia e criatividade. Todavia,
uma falta há que se destaca por toda a gravidade que a sua ausência acarreta. Olhando,
ainda que au vol d’oiseau, o elenco
das mãos históricas abordadas nota-se a falta do último quartel do século XX até
final do milénio. Esteve debuxada uma mão histórica envolvendo esse lapso
temporal da implantação democrática nos manejos da sociedade portuguesa, mas
foi abandonada a sua prossecução. De facto, as últimas quatro décadas fazem
parte de uma mesma mão histórica que ainda não terminou.
Se os
portugueses tiveram a sensação de que finalmente tiveram a liberdade há muito
prometida e adiada de se manejarem individualmente em extâses de autogratulação,
libertos já de um Estado cuja relação com os cidadãos era de unilateral exigência
das mãos destes para sua estimulação, nã realidade, esse oásis de egotismo
amoroso foi pífio. Na realidade, os portugueses foram, nas últimas quase quatro
décadas, bem oleados e entorpecidos para agora serem brutalmente sodomizados em
seviciosas orgias por bancos, seguradoras, agências financeiras e outros
gigantescos interesses que nos flagelam inapelavelmente com o látego da maioria
parlamentar em exercício, num pesadelo inimaginável a qualquer Donaciano ou
Leopoldo.
É possível
e mesmo provável que os caros leitores tenham encontrado faltas ortográficas,
gralhas tipográficas, referências pornográficas. É possível e mesmo provável
que os caros leitores tenham encontrado tempos verbais não concordantes, aliterações
dissonantes, metáforas repugnantes. É possível e mesmo provável que os caros
leitores tenham encontrado pontuações censuráveis, figuras de estilo indecifráveis,
locuções deploráveis. Tudo isto, caros leitores, é possível e mesmo provável,
no entanto, o Moyle roga a vossa indulgência, que reputa infinita, para a urgência
de apressar o fim.
Não
houve tempo nem, sobretudo, disponibilidade para revisões. O Moyle precisou de sacudir-se
deste texto antes que o mesmo lhe sujasse as mãos.