7/31/2007

As Sete Maravilhas e Meia de Portugal

A apresentação mediática das 7 Maravilhas de Portugal e do Mundo, levou o Moyle a deixar pousar as águas e a aguardar uma melhor altura para divulgar as verdadeiras maravilhas, aquelas com que os portugueses, não votando, se podem considerar dignamente representados. Reflecte esta lista o ecletismo de Moyle e a tentativa de equilíbrio coerente na escolha das maravilhas (as verdadeiras maravilhas) de Portugal. Poder-se-ia notar uma certa falta de ambição por esta ser uma escolha de maravilhas nacionais e não universais, mas a isso responde-se com duas posições axiológicas. Primeira, o que é bom em Portugal é-o em qualquer parte do planeta (até porque em qualquer ponto do planeta há portugueses). A segunda posição é que esta lista não é concorrente das duas listazecas que por aí correram em votação. Esta, repete-se, não é mais uma lista, esta é “A” lista.
Tentou-se a diversificação do leque de escolhas de forma a enquadrar o maior âmbito paramétrico possível, daí a escolha de lugares, objectos da reunião do antigo e do novo, da natureza à civilização.
Quanto ao resultado, pensa o Moyle que é uma redundância inequívoca, pela unanimidade consensual que irá gerar nos seus leitores.


- Reserva Natural da Ribeira dos Milagres
Exemplo paradigmático da relação simbiótica que as exigências civilizacionais podem estabelecer com a Natureza. Assiste-se, neste espaço privilegiado, à explosão de cores da natureza, que vão de uma paleta enorme de verdes, do miséria ao desmaiado, até ao cinza azulado, com umas pinceladas de puro preto, nas águas. Percebe-se, ostensivamente, o enriquecimento do ar com refinados aromas que gratuitamente as suiniculturas oferecem à Mãe Natureza, em reconhecimento das dádivas generosas desta. Sente-se esta dádiva de gratidão docemente ardendo nos pulmões. Além das cores e dos olfactos, percepciona-se uma mudança lenta, mas inexorável, na fauna local, devido à reconfiguração genética e dos habitats em curso, da qual Darwin ficaria orgulhoso e que os industriais leirienses graciosamente proporcionam. Por este motivo, aliás, pensa-se que a ribeira pode vir a ser o Loch Ness continental.
Pela poesia que infundiu no Moyle, por ser um monumento ao impudor, à falta de vergonha no assumir da relação entre civilização e natureza, a Reserva Natural da Ribeira dos Milagres consta como uma das inequívocas maravilhas nacionais.


- Cadeira do Doutor Oliveira Salazar
Há momentos, há lugares, há objectos que marcam decididamente não só uma mas muitas vidas.
A Cadeira da qual o Doutor Oliveira Salazar caiu em 3 de Agosto de 1968 é um desses objectos. A simbiose entre a sentatória e o sentado era tão profunda que este caiu daquela pela mesma razão que aquela deixou cair este: estavam ambos podres de velhos e tanto o mofo como o caruncho nunca foram famosos pela resistência a esforços. Está, ainda, este objecto associado directamente a um dos Piores Portugueses e a um dos Portugueses Mais Assim-Assim [ver Portugal Hoje - Os 10 Piores Portugueses 10.05.2007 e Portugal Hoje - Os 10 Portugueses Mais Assim-Assim 14.05.2007]. Por outro lado, a cadeira do Doutor Oliveira Salazar, foi directamente responsável pelo fim do resultado fisiológico de então, mas tem uma quota-parte de responsabilidades no resultado fisiológico em vigor. É caso, então, para dizer que mudaram as moscas mas a cadeira é a mesma.


- Balão que levou o Dino
O cor-de-laranja tornou-se tão odioso aos olhos dos portugueses que na Páscoa de 2006 a incidência de gripes e constipações, por falta de vitamina C, disparou astronomicamente para níveis a roçar o epidémico. Quem foi o responsável pela avitaminose que atacou os portugueses? Precisamente aquele “actor” com nome de pastilha elástica cuja personagem se chamava «Dino» na conhecida (mas não reconhecida) série infanto-juvenil-parvónica da TVI, «Morangos com Açúcar».
A entrada do Balão que levou a personagem sabe-se lá para onde (parece que não havia bilhete de regresso) nesta lista é uma questão de mera justiça. A saúde pública e o SNS agradecem, embora as farmacêuticas nem por isso.


- Águas Medicinais da Vialonga
Há mais de dois mil anos que o território actualmente português é reconhecido pelas qualidades (às vezes ditas miraculosas) das suas águas minerais e estâncias termais. São recorrentes em todo o território nacional os vestígios de termas e caldas, desde tempos romanos até ao presente.
Aqui prestamos homenagem a essa qualidade e tradição portuguesas com a escolha para esta lista do «Complexo Termal e Estância de Águas Medicinais da Vialonga». A qualidade das suas águas de cor âmbar tem sorrido em benesses aos portugueses há já longos anos. É absoluta a unanimidade em redor desta escolha, até porque 10 milhões de vezes foram pronunciadas as seguintes palavras exultantes, depois da ingestão da ditas águas: - Ahhh, que maravilha!


- Alheira de Mirandela
Numa lista das maravilhas nacionais preocupou-nos, como de resto mencionado na introdução, o ecletismo, sendo a nossa concepção de maravilha muito mais abrangente (ergo verdadeira) do que a estreiteza de vistas manipulativa dos concursos (melhor seria dizer, das campanhas publicitárias a agências de viagens) em decurso, demasiado positivistas e comerciais para serem credíveis. Assim se explica a escolha desta maravilha nacional. Não haverá português que discorde com a enorme qualidade das verdadeiras alheiras de Mirandela. Acresce ainda o facto de ser gastronomicamente polivalente, podendo ser consumida de várias maneiras. Porém, o mais extraordinário de tudo é que, e existe um estudo de altíssimo mérito científico da Universidade do Porto a comprová-lo, é que a Alheira de Mirandela só pode ser consumida se for previamente cozinhada.
É a ciência a corroborar as escolhas do Moyle.


- Baixo Alentejo durante a semana
Sendo a região menos densamente povoada de Portugal Continental, o Baixo Alentejo merece o epíteto de Maravilha. Os nossos leitores estarão a achar estranho? Têm a sensação de que vos está a escapar algo? Não se preocupem, acompanhem o raciocínio do Moyle. Como se poderá designar uma tão pequena concentração de portugueses? A resposta é simples e óbvia. Uma tão pequena concentração de portugueses só pode ser uma coisa: Uma Maravilha.
Eis, então, a razão da nossa escolha. Lógico, não?


- Aldeia da Luz I
Ao observarmos as reacções dos moradores à transferência para a Aldeia da Luz II, o Moyle é levado a crer que a Aldeia da Luz I (a original, agora submersa) seria o paraíso português na Terra. Senão vejamos.
A aldeia da Luz II tem água canalizada; cada casa tem água quente; instalações sanitárias; cozinhas equipadas; paredes e telhados sólidos; equipamentos sociais de vária ordem; arruamentos alcatroados e mobiliário urbano; um cemitério digno de 1º mundo. Porém, escândalo dos escândalos, não custaram um cêntimo aos moradores, todas estas benfeitorias.
Se o protesto e descontentamento, a insatisfação e as reclamações não cessam, podemos apenas vagamente imaginar como seria a Aldeia da Luz I. O facto da incidência da luz solar na povoação não respeitar completamente os pontos cardeais originais é apenas um fait divers, que apenas se vem juntar à magia, à beleza, ao encanto, a tudo o que fazia da Aldeia da Luz I uma autêntica maravilha.

- Ponte Hintze Ribeiro
Marco de um tempo, de uma visão do mundo, de um estádio de desenvolvimento da engenharia, a ponte Hintze Ribeiro, sobre o Rio Douro, em Entre-os-Rios vem completar a nossa lista de maravilhas. Símbolo, neste momento, da polivalência da oferta turística portuguesa, esta ponte serve agora como referência do chamado turismo de tragédia e da arqueologia industrial da desgraça.
Porém, por motivos óbvios, o acrescento que vem trazer a este rol será sobretudo simbólico. Daí que aqui esteja como uma meia maravilha.

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