3/04/2010

El Gusano

O que é que uma tragédia tem de engraçado? Nada, dirá a maioria. Mas a maioria não acerta sempre, como bem sabemos. E dada a matriz civilizacional judaico-cristão que nos enforma a priori, esta questão está viciada ao ponto de apenas eu ter razão quando acho que as tragédias têm sempre alguma coisa de risível.
O dilúvio na Madeira, no entanto, estava a revelar-se difícil em ceder a matéria-prima para o proverbial mau gosto do Moyle, a sua desprezível insensibilidade e consequentes atentados à paciência e dignidade dos leitores. No entanto, quando pensava ter começado a ceder ao cristiano-judaísmo matricial da sua civilização, no que isso implica de sentimento de culpa, piedade e simpatia pelos outros nos seus momentos de infortúnio, as nuvens abriram-se e delas saiu qualquer coisa (que raios de luz é demasiado cliché mesmo para os padrões moylísticos).
Eureka. Para lá dos muitos, a grande maioria dos quais ignotos, talentos de Alberto João Jardim, um se destacou nestes momentos de provação. Não, não foi a sua capacidade de liderança. Foi a sua habilidade absolutamente fenomenal de fazer malabarismos com mortos. Desde o século VII a.D. que não se via uma figura capaz de lidar com a morte e os mortos de maneira tão desembaraçada e entretida. Hoje há 39 mortos, ontem eram mais de 40, no fim dos rescaldos e contabilidades tanáticas a Madeira vai ter mais gente do que antes das enchentes.
Se isto já tem o seu quê de insólito, melhor ainda foi a figura da Secretária Regional de Turismo da Madeira, Conceição Estudante. Por um lado, lembrou a espaços, embora bastante vividamente, a figura patusca e apalermada que fazia o Ministro da Informação de Saddam (Muhammad Saeed al-Sahaf para quem não se lembra). Por outro, ao ser mandada dizer e desdizer-se poucas horas depois, fazia mais sentido mudar o nome para Conceição Estagiária.

6 comentários:

Noya disse...

A Conceição Estagiária não vi (logo não sei que pasa), apenas vi a decisão de não declararem a situação de calamidade (sim, já lá vai o tempo, eu sei) por causa do turismo. Tendo em conta que vi as primeiras imagens na BBC faz todo o sentido...

Moyle disse...

Noya,

correu bem, esse aspecto. ahahahahah

blayer disse...

O João Jardim é como um crossaint do absurdo.
Podia explorar, mas não creio ser necessário

Teté disse...

Pois, o intuito até podia ser não provocar alarmismos desnecessários, mas o tiro saiu pela culatra e foi precisamente o contrário! Já toda a gente dizia que o governo regional estava a sonegar informação, porque o número de mortos começou a diminuir...

Só o Alberto João (mais a tal da Conceição) para esconder mortos "debaixo do tapete"!

Moyle disse...

Blayer,

fica tudo dito...

Moyle disse...

Teté,

não há desgraça que não se possa transformar pelas artes mágicas em ridículo e o AJJ é um Luís de Matos nessas transformações :D