10/15/2009

A Cigarra e a Formiga

Era uma vez uma cigarra e uma formiga que viviam numa pradaria.
A cigarra, tal como de costume, deu a perceber a toda a pradaria que se apercebeu da chegada da aproximação estival, pigarreando como um tuberculoso durante meia hora antes de abrir os tubos traqueais num berreiro apocalíptico, dando largas à sua alegria. Na realidade ninguém sabia muito precisamente o que acontecia à cigarra durante o Inverno, apenas que mal despontava o Sol primaveril aquela parecia acordar com uma boa disposição que a todos sumamente enervava, pela sua necessidade patológica de cantar em altos berros. É que de ouvir cantar todos os animais gostavam mas a cigarra insistia em transformar qualquer cantilena no “coro dos escravos” do Nabucco – não que algum bicharoco alguma vez tivesse ouvido ópera mas esta analogia pareceu ficar bem aqui.
Tal como inserido no seu código genético – parvoíces do ácido desoxirribonucleico – a formiga, mal terminaram as persistentes chuvas de Inverno, abriu as portas e janelas do formigueiro para arejar o bafio do encerramento, montou no pátio de entrada o seu estirador – reminiscências de uma juventude em que sonhara com arquitecturas – e pôs-se a elaborar um plano de contingência, igual ao que fazia todos os anos na Primavera. A rotineira repetição desta prática fê-la pensar no carácter de contingência do plano e porque raio de razão não lhe chamava apenas projecto de aprovisionamento de subsistências. Afinal de contas, tinha sido apenas pelo nome pomposo que ela escolhera tal designação e “projecto de aprovisionamento de subsistências” soava igualmente grandiloquente. Passada a momentânea divagação, o seu espírito pragmático e empreendedor pôs patas – todas as seis – ao trabalho.
A cigarra, desentorpecida do estupor invernal, cirandava pela pradaria cantando. Após os primeiros acordes, ainda débeis e hesitantes, soltava decibéis em enorme escala, embora com um respeito pela harmonia sinfónica algo duvidoso, anunciando a sua presença largos minutos antes da sua chegada. Sentia-se ufana pelo seu efeito, embora algo mal interpretado da sua parte, no resto do mundo animal. Quando se aproximava de alguém redobrava os seus esforços e empreendia longas deambulações vocais por variações de musicalidade duvidosa, isto é, e recorrendo ao que pensava de si o resto da bicharada, berrava que se desunhava. Mas a cigarra era imune a críticas. De facto, não as imaginava, construindo um auto-conceito apenas comparável em magnitude ao berreiro que desenvolvia e que tão bem soava… aos seus próprios ouvidos.
Voltando à formiga, era necessária à consecução do seu projecto definir as quantidades de alimento necessárias e fazer a prospecção dos pontos de colheita dos mesmos, organizar a logística de transporte, estabelecer um cronograma preciso contendo o tempo necessário às viagens de ida e volta e os necessários tempos de alimentação e descanso, rentabilizar o espaço disponível no formigueiro, afectando às necessidades de armazenagem novas áreas, projectando novas construções, se necessárias, prevendo toda a infra-estrutura de circulação do ar, para garantir uma boa conservação dos stocks durante os longos meses húmidos, estabilizando, ao mesmo tempo, os níveis de temperatura e humidade dentro dos armazéns.
Um gafanhoto encontrava-se a recobrar fôlego dos ataques epilépticos que lhe distendiam e contraíam espasmódica e involuntariamente as patas de trás, levando-o para paragens que não controlava e que já o tinham posto em apuros, como da vez em que interrompera a lua-de-mel dos grilos, mesmo a meio do acto, por ter aterrado involuntariamente por cima da folha que lhes servia de tecto. De facto, era uma maldição da sua espécie, o descontrolo epiléptico que lhes fazia tomar direcções descontroladas e erráticas. Era por isso que os gafanhotos eram um grupo aparte na pradaria. Não conseguiam manter um emprego nem podiam dedicar-se aos negócios pois abandonavam reuniões, clientes e fornecedores inesperadamente, deixando-os a falar sozinhos, por um lado, e como não controlavam o destino dos seus pulos, eram frequentemente confrontados com olhos negros e outras lacerações por parte de bichos não tão tolerantes com as intempestivas irrupções na sua vida privada. Graças aos céus que tinham asas e ao menos, valia-lhes isso, controlavam a intensidade com que atingiam o solo, ou lá o que fosse onde aterrassem.
- ENTÃO GAFANHOTO, QUE TAL TENS ANDADO? - perguntava a cigarra com tom operático e volumetria decibélica que mal deixavam entrever a ironia.
- Não me chateies…, suspirava o ortóptero com pouca disposição para piadolas. Que tal o Inverno? – replicou para tentar desviar o assunto. Estava mesmo com pouca paciência para aturar a cigarra, traumatizado ainda por ter visto a grila com pouca roupa.
- NÃO FOI MAU. DORMIR E COMER, DORMIR E COMER…
- Mas se não te vejo a aprovisionar para o Inverno nem ninguém te conhece casa fixa, comes o quê e dormes onde? – questionou um intrigado gafanhoto, dando voz a uma curiosidade de tudo quanto era bicheza na pradaria.
- OH OH OH – inchou-se a cigarra, antevendo a oportunidade de alimentar o gargantuano ego – SABES COMO É. FUI PARA UM PARAÍSO TROPICAL. TAMBÉM É PRECISO REPOUSAR AS GOELAS. O TRABALHO ARTÍSTICO É MUITO ESGOTANTE. – vangloriou-se.
- Pois, pois, estou a ver. (Tens é uma sorte descomunal). Mas como pagas isso? Não deve ficar nada barato! – arrependeu-se o gafanhoto de ter perguntado pois, por um lado, não lhe interessava grandemente a vida da cigarra e, por outro, antessentia a aproximação de um espasmo que o levaria sabe-se lá para onde e para que confusões.
- UM TRABALHINHO AQUI, CANTAR NAQUELE CLUBE, CANTEI A BORDO DE UM CRUZEIRO SEM PAGAR NADA, APROVEITANDO ASSIM PARA ANDAR POR CLIMAS MAIS QUENTES NA PASMACEIRA INVERNAL DA PRADARIA… NÃO FOI MAU.
- Pois… mas isso não é garantido. Qualquer dia ficas na mão, enregelas-te para aí e quinas de inanição. – alertou um gafanhoto impressionado com palavras que nem sabia conhecer.
- BEM SEI MAS NÃO HÁ ESPIGA. EU SEI QUE, MAIS DIA, MENOS DIA, A MINHA OPORTUNIDADE CHEGARÁ E VOU DESENCANTAR UM CONTRATOZINHO CHORUDO QUE ME DARÁ UMA REFORMA DOUR… EIII, ONDE É QUE VAIS? – gritou, pelos seus próprios padrões de grito, a cigarra surpresa pelo desaparecimento do interlocutor. Mas a única coisa que ouviu foi um indecifrável - …MERRRD… - e, encolhendo os ombros, continuou no seu périplo cantante.
Com recurso a um ábaco, de que se orgulhava inventora, a formiga queimava as pestanas – que obviamente não tinha, nem podia ter tratando-se de uma formiga e as pestanas são apanágio privilegiado dos mamíferos – calculando quantidades de sementes por dia, por hora, tendo em conta potenciais atrasos na chegada do tempo seco. Havia ainda que contar com a possibilidade de parasitas adulterarem os cálculos finais e diminuírem as provisões disponíveis. – Raios partam os ácaros! – lançava nervosamente, de quando em vez. Mas no conjunto sentia-se orgulhosa do que era capaz de fazer. A estrutura era à prova de humidade, bem ventilada, resistira sem danos a mais uma estação fria e chuvosa mantendo uma temperatura constante e muito agradável. Não era a vida de grande construtora com que sonhara em criança mas, no fim, de contas, sentia-se confortável com o que tinha e fazia.
A cigarra lançava uma ária épica de cima de um cogumelo nascido na casca de um carvalho que, curiosamente, tinha apodrecido mais rapidamente desde que fora escolhido pelo insecto cantante para divulgar a sua arte, quando o seu canto atraiu um extremamente interessado personagem. Tendo-se apercebido da audiência, a cigarra redobrou os seus esforços para níveis inauditos e óbvio deleite da estranha personagem que, sub-repticiamente, era observado. por aquela. Quando terminou, a necessitar desesperadamente de compassar a respiração, o que desejava não fosse notado por revelar a sua falta de técnica vocal, foi abordada por um escaravelho, este de aspecto luzidio, de higiene e gosto duvidosos, mesmo pelos padrões de insectos, com uma proposta de trabalo. Os sonhos da cigarra ganhavam forma.
No seu afã, absorvida que estava pelos cálculos e considerações que a magnitude do seu trabalho exigia, a formiga falhou em perceber que uma sombra negra se aproximava. Lento mas inexorável, um destino imprevisível projectava sobre a laboriosa criatura o seu negrume. Atribuiu-o ao facto de conseguir ouvir a cigarra, essa inútil cujo estilo de vida não aprovava e, mais importante que isso, até porque não tinha nada que ver com a vida dos outros, não compreendia. O barulho, pois apenas assim o conseguia definir, lembrava-lhe discussões anteriores em que, muito enervantemente, a formiga lançara prognósticos sensatos de perdição para a cigarra, os quais nunca se tinham verificado, safando-se sempre a ociosa cigarra sem levantar uma palha. – Se ela aqui aparecer mando-a ir "coisar" com um cigarro! – permitiu-se pensar, esboçando um leve sorriso e afastando, assim, o mau pressentimento e a sombra que lhe parecia aproximar-se.
Por perto, a cigarra cantava agora, mais alto e mais irritantemente que nunca, que estava rica. Berrava a sua felicidade pelo contrato que acabara de assinar, lançando o pânico por entre a pradaria que se apercebia das consequências que tomavam forma. Se, até ali, apenas um pequeno grupo populacional de cada vez, consoante as deambulações, tinha que suportar o berreiro da cigarra, no futuro tudo isso mudaria e todos, ao mesmo tempo, para sempre, sofreriam com ela em tudo o que fosse canal de televisão e rádio.
Só tarde demais, a formiga, despertou do estupor afanoso em que estava envolvida para se dar conta de ser rodeada por uma espécie de noite cerrada, a qual o seu relógio biológico lhe dizia instintivamente caíra demasiado cedo. Olhou para cima para, com tremendo horror, ter um breve e escatológico vislumbre. Um monstro terrestre, de uma dimensão incomensurável pelos cânones da triste formiga, que na juventude acalentara nunca esquecidos planos de ser uma arquitecta, aproximara-se, fazendo tremer o chão. E, num mero instante, destruiu uma vida de sonhos e de trabalho.
Nunca a vaca saberia que a naturalidade da sua descarga intestinal, à qual não prestava mais importância que à urgente necessidade que sentia de comer e de enfiar a língua dentro do nariz, significara a destruição de uma vida…
Felizmente para si, nunca a formiga saberia que, sem nunca ter mexido uma palha na vida, sem jamais ter alguma vez realizado algo de verdadeiramente produtivo, sem mais fazer senão irritar toda a gente que, complacente e incompreensivelmente, a tolerava, a cigarra, que nunca houvera trabalhado, nunca o precisaria de fazer. Assinara com um banco um contrato para cantar nas suas campanhas publicitárias e, com esse nenhum esforço, garantiria, em troca de uma boa remuneração, que não faria mais que o que sempre fizera à borla.
Idiotas! – pensou ela, por entre sorrisos de auto-satisfação.

16 comentários:

ipsis verbis disse...

Afinal, a verdadeira história da cigarra e da formiga. :D

Moyle disse...

ipsis,

man, quem diria :) há muita desinformação?

johnny disse...

Temos, portanto, um la Fontaine um pouco mais cínico.

Finais felizes? Só nas massagens tailandesas.

Teté disse...

Embora siga no mesmo sentido da minha historieta - que, aliás, é quase uma banalidade nos dias que correm... - a tua história está muito mais completa, tendo outros laivos de ironia. Adorei a dos pobres gafanhotos com o tique nas pernas, e o trauma daquele desgraçado por ter visto a grila com pouca roupa... :)

A tua formiga é irritantemente eficiente e a tua cigarra... bem... faz-me lembrar alguns políticos cá da nossa praça, que não se olham ao espelho!

Ah, e claro, também não matei ninguém! Mas afinal à própria formiga também faltava discernimento para verificar o que se passava à sua volta, que também faz lembrar muita gente cheia de certezas e verdades, até que um dia, pois...

A versão moylística da "Cigarra e da Formiga" está muita gira!!! :D

Bom fim de semana para ti!

Blayer disse...

Isto para não falar do sagitário, aquele sabujo amontoado de inutilidade

Moyle disse...

johnny,

é isso precisamente que digo, um final feliz é uma história que ainda não acabou.

Moyle disse...

Teté,

simpáticas palavras mas a tua versão é mais eficiente. Fiquei a sentir-me mal por sujeitar toda a gente [embora apenas 4 ou 5:)] à extensão desmesurada da minha parvoíce. mas fiquei contente por terem lido :)

boa semana

Moyle disse...

Blayer,

o Pégaso deve andar pelos cabelos com ele mas o Millenium acho que já o contactou

13 disse...

Moyle (o contador de históias),
não te sintas mal por sujeitares toda a gente à extensão desmesurada da história - e não da parvoíce :D.

E no fundo, no fundo (mesmo da descarga intestinal) não é certo que a formiga pereceu... Finais felizes constroem-se :)
Mais que um final, é um meio. De algo que me lembra, sei lá, o dia-a-dia...

Moyle disse...

13,

bem, tens razão. nem sempre quem te põe na merda quer o teu mal e nem sempre que te dela tira é teu amigo:)

13 disse...

Moyle,
ora aí está! Quem me diz que o mamífero malhado não estaria a fornecer armas à formiga para enxotar a cigarra...

johnny disse...

Tenho a mesma opinião tal como tenho há algum tempo uma ideia para uma história baseada nisso das histórias e da realidade que as contradiz... mas não conto nada que alguém pode roubar... ou pode não ter interesse nenhum.

Moyle disse...

13,

mais ainda, quem te disse a ti que o mamífero era malhado? :D

Moyle disse...

johnny,

estamos num impasse. se não contas não se pode saber do interesse, se contas arriscas-te a que te banhem a ideia... o melhor é escrever logo e fica resolvido :)

johnny disse...

Ou não!

Moyle disse...

johnny,

por exemplo :)