11/28/2012

Hello Africa, tell me how you're doin'!


Um dos processos mais interessantes dos nossos tempos, já que falamos nisso é também um dos mais deprimentes, consiste na inapelável africanização do nosso país. Não pensem, contudo, que este é mais uma daqueles delírios hiperbólicos que, invariavelmente, afectam os auto-observadores, ou seja, os comuns cidadãos, de Portugal, com notáveis consequências para a qualidade dessa mesma observação. Embora, enfim, se perceba a sucessão de ocorrências deste tipo. 

Quem sofre na pele as misérias quotidianas, tende, por algum motivo encoberto que se nos elude, a conferir-lhes valor e a centrar-se no próprio sofrimento mais que na necessidade de ser racional e ojectivo na análise dos fenómenos que provocam essas misérias e sofrimentos. Não devia ser assim? Talvez não, mas compreende-se que seja. Afinal de contas, para o pior e para o menos mau, somos humanos e, no degrau imediatamente a seguir, descendente, note-se, somos portugueses.

Ora, não se trata de mera hiperbolização de pendor diabolizante das elites, governativas  e outras, quando o Moyle chama a atenção para a africanização do nosso país. É mais simples do que isso. É tão simples que o Moyle vos vai oferecer o próximo parágrafo, uma pérola hipozeugmática perfeitamente desnecessária, em que desmonta a putativa complexidade dos termos envolvidos.

A tendência para uma democracia mais nominal que fáctica, a concomitância entre a sobrevalorização dos canais fáticos e o ocamento das mensagens políticas, a hipertrofia dos signos e o nihilismo de significantes dos períodos eleitorais, a mentira como unidade monetária do comércio político entre governantes e governados, o desmantelamento plutocrático da res publica e sua distribuição oligárquica, a cristalização nepotista das aristocracias partidárias, não ditaram a afirmação de estar o nosso país em processo de africanização.

Vemos que Portugal está a caminho da africanização, não tanto pela prevalência, ao longo da maior parte do ano, de valores UV elevadíssimos que nos estejam possivelmente a transformar em tostas e, portanto, a aumentar a melanina nas nossas dermes como acontece na margem sul, do Mediterrâneo, mas pela existência de semelhanças culturais assombrosas entre as elites governativas. Para isto ser uma coisa séria, mais que uma langonhice de letras com um conceito subjacente extremamente mal amanhado como de costume, passemos aos exemplos. Os factos são nosso amigos, nestes casos, e se, porventura, os factos infirmarem a teoria... bem, tanto pior para os factos. 

Dêem um saltinho ao Público e vejam esta notícia. Reconhecem a imagem? Sim, é mais ou menos aquela ali de cima. Ora, tantas linhas para quê? Parece um pouco surpreendente que o presidente do ANC, da África do Sul, Jacob Zuma, tenha sacrificado 12 vacas para se manter no Poder. Não parece nem humano nem, mais que isso, lógico. Talvez tenham feito grande churrascada em seguimento. Faria sentido convencer as pessoas pela pança e não os deuses pelo ritual. De certa forma, a estupidez da duodecatombe africana sairia mitigada.

De qualquer modo, o Sr. Zuma matou os bichos num ritual religioso. Como é natural, ninguém de bom senso acredita que este comportamento dê algum tipo de resultado pois estes sacrifícios são motivado por superstição e não por dados, factos, conhecimento, sabedoria. O mesmo acontece em Portugal neste momento e daí a tal questão da africanização! Zuma sacrificou doze vacas, Portas, Passos e Gaspar sacrificam 12 milhões de cidadãos em nome da sua permanência no Poder, logicamente, e em nome de uma superstição em que ninguém mais, notadamente ninguém de bom-senso, acredita: cumprir o memorando!

Se, porventura, acharem um pouco abusiva e ofensiva mesmo a comparação entre a morte dos pobres bovinos em África e a situação dos cidadãos portugueses por cá, peço-lhes que considerem estes particulares: Se o dono vergasta um bovino, que faz o bovino? Nada! Se o governo vergasta portugueses, que fazem os portugueses?
Quando o dono explora o trabalho do bovino para si e os seus, o bovino reclama? Não! Quando o governo explora o trabalho de portugueses, para si e os seus, os portugueses reclamam?
Sendo os bois alimentados e mantidos pelos donos, quem é verdadeiramente bovino nesta história?

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