Há tanto tempo que nem ela se lembrará já disso, numa troca de comentários com a Teté, aqui no Moyle, falou-se, ou melhor, falou ela – por escrito está bem de ver – dos portugueses serem calões. O carácter calaceiro – expressão equivalente a calões que se usa em várias zonas do país - dos portugueses é, efectivamente, um facto histórico primordial na definição da nacionalidade portuguesa.
Na realidade, “calão” provém do latim Cale, que vocês reconhecerão como o nome latino da cidade de Gaia na margem sul do Douro, que era servida por um porto, que se desenvolveu como burgo na margem esquerda e daí obteve o nome, “Porto”. Os seus magros, por inexistentes, conhecimentos de latim permitem ao Moyle reconhecer, ainda que por invenção, em Cale um topónimo latino cujo radical é um étimo indo-europeu c’al, designativo do antónimo de movimento, de acção, que originará, por exemplo, as palavras calma e, o popular, calão.
O extremo ocidental da península foi a última região da Ibéria a ser conquistada pelos romanos. A literatura e historiografia nacionalistas atribuíam-no ao carácter belicoso e agressivo dos povos da Lusitânia e a um perfeitamente anacrónico sentimento protonacionalista. Na realidade, aos romanos não interessou mais cedo esta região porque não se passava por cá nada. Os povos da terra viviam da pastorícia e do saque e resistiam em extremo às inovações trazidas pelos romanos, a mais avançada civilização do tempo. Reconhecem alguma coisa? Precisamente, dedicarem-se à pastorícia significa que não se davam ao trabalho de agricultar o solo, limitando-se a esperar que as ovelhas os sustentassem naturalmente, e quanto ao saque, bem, é óbvio.
Ora, Portugal, precisamente o Porto de Cale, definiu-se como unidade política e administrativa durante o período medieval, no contexto da guerra contra os muçulmanos, tradicionalmente designada por Reconquista Cristã. Antes de reino, o território do nosso país era um condado que pertencia ao reino de Leão, sendo atribuída a sua administração e governo a um cavaleiro francês, cujo filho levará a cabo o esforço militar, político, económico e cultural para a sua ascensão à categoria de reino independente. Mas a primeira “capital” de D. Afonso Henriques foi Coimbra e não o norte do território de onde partia a guerra contra a mourama, o que nos levanta uma pista importante. O primeiro rei português, embora se intitulasse rex portugalensium, isto é, rei dos portugueses, afastou-se da região de Gaia e dos povos calenses, onde as intrigas da nobreza local e do clero para o controlarem ameaçavam os seus intuitos de edificação de um reino seu.
Basta vermos, que a parvoíce já vai longa, que de tempos a tempos a monarquia portuguesa sentiu a necessidade de combater o seu destino genético injectando-se com sangue novo, nomeadamente do norte da Europa para terem a certeza de purificarem a calaceirice que se entranhava no ácido desoxirribonucleico da linhagem régia. Os primeiros reis são de origem francesa, com casamentos com outras famílias europeias; no sobressalto dinástico do século XIV – lembre-nos que D. Fernando casara com uma portuguesa – nova injecção nórdica, com D. João I a casar com uma inglesa, e por aí adiante. Parece desnecessário continuar…
É claro que podemos trabalhar muito e esforçarmo-nos por mudar e melhorar, é certo que a discussão sobre o peso exercido por factores genéticos e ambientais no indivíduo continua em aberto, mas factos são factos e os portugueses são naturalmente calões. Está na sua génese biológica e cultural.























