2/23/2012

Memento homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris


Umas das coisas que o Moyle mais aprecia é, como bem o sabeis caros interlocutores da demência alheia, a etimologia.
É bem sabido que a etimologia não se pode comer com cogumelos e mozzarella, numa bouchée a la reine generosamente regada com rubicunda líquida ambrósia duriense. Para ser franco, não é sequer a etimologia no seu conjunto que preenche da doce geleia do enlevo as sinapses moylísticas mas particularmente uma casta específica de etimologia, mais precisamente a etimologia inventada.
Adivinharam, fofas bolinhas cor-de-rosa de pêlo macio e acumulador de ácaros, estamos cá hoje para ainda outro exercício, palerma como os anteriores, note-se, de etimologia ficcional.
Por onde começar? A esta magnífica, extraordinária, interessante, ordinária… a esta, vamos lá, questão podemos sugerir como resposta uma ninharia: o Homem! É pelo Homem que começamos, portanto.
O Moyle percebe a vossa indignação, habituados que sabe estarem à grandiloquência e à monumentalidade das temáticas por aqui abordadas, pelo destaque concedido a uma insignificância temática como o Homem. O Moyle penitencia-se e em humílima contrição roga a vossa complacência para com a sua episódica parcimónia intelectual.
Qual é a origem do Homem, questiona o Moyle apenas pelo gozo de iniciar um outro parágrafo com uma pergunta? Para este pequeno problema a resposta é, natural e simplesmente, o acto de coiso. Desdobrando a formulação: sem coiso entre duas pessoas não há vida humana. E, naturalmente, sem vida humana – além de toda a outra se ressentir para melhor – não há Homem. Ora, se não há Homem, este texto não tem razão de ser. Se o texto continua é porque o Homem existe e é tema aqui e agora. Portanto, o nosso ponto de partida foi o Homem mas onde queríamos mesmo chegar era à origem do Homem, isto é, o acto de coiso.
Já reparam como coiso, para se referir o congresso sexual entre dois seres humanos (e não só!), é estranhamente próximo de ‘coito’, uma designação social e cientificamente aceitável para referir a mesma coisa? Mas deixemos de lado as trivialidades! Seja como for, o coito é uma designação válida para a relação sexual e são as derivações deste aspecto que nos preocupam de momento.
Quando nos deparamos com uma pessoa que sofreu vicissitudes de vária ordem e das quais não saiu em tão boa forma como tinha entrado nelas temos para ela, mesmo no ápice lingual, uma designação genérica que a caracteriza: “coitada”.
Reparem nisto, o que é uma pessoa coitada senão uma pessoa que, real ou metaforicamente, foi ou está, à falta de melhor designação, fo**da?
Poderiam, do Olimpo da vossa sapiência inquestionável, alegar que coito poderia provir de ‘couto’, depois de corrompida pelo vulgo. Mais, que couto significa propriedade isenta fiscal e jurisdicionalmente, ou seja, privilegiada por pertencer ao clero. Concomitantemente, coutar [e sua derivação coitar] poderia significar isentar, favorecer ou privilegiar (aceitando divagações metonímicas).
Caso fizessem tal alegação, compreensivelmente considerando uma saudável relutância em levar a sério alguma coisa que se leia neste antro de demência, o Moyle ver-se-ia na contingência inevitável de agradecer. E esse agradecimento estaria em ordem com o cosmos porque, caso usassem o argumentativo supracitado, estariam a confirmar a postulação moylística inicial.
Vejamos, ao considerarmos a influência do clero na estrutura de propriedade e o seu atavismo em termos de promoção da produtividade agrícola, chegamos à conclusão de que – e excluindo períodos da Alta Idade Média – o balanço geral ao longo da História de coutar terras acabou por significar ‘coitar’ essas propriedades. Na realidade, a esmagadora maioria da tenência fundiária eclesiástica era inútil em termos de melhoramentos e benfeitorias nesses imóveis. Ou seja, o clero contribuiu sobremaneira para f**er a agricultura enquanto uma actividade de produção de riqueza e não de mera subsistência e exacção tributária.
Atendendo à já extensa exposição em que uma tese foi demonstrada e sujeita a uma terrível contra-demonstração, parece ao Moyle que a origem etimológica da expressão ‘coitado/a’ nasce, então, do étimo latino coitus e não do étimo latino cautum. Razão pela qual à pessoa que esteja fo**da com, ou tenha sido fo**da pelo cosmos, a sociedade ou qualquer outra coisa, se atribui o epíteto de ‘coitada’.

2 observações (im)pertinentes:

Teté disse...

Se há coisa da qual não te podes queixar é da falta de imaginação ou de capacidade inventiva! E eu acho piada! Porque de princípio pensava com os meus botões: "mas porque é que ele não vai direto ao 'truca-truca' (ou outros termos afins), se não seria a primeira vez que aqui o escreve"? Afinal havia uma razão de peso para te alongares nas explicações... :)))

Coitada de mim, devo estar pior! Juízos apressados... é no que dá! :D

Moyle disse...

Teté,

:D